Shi Cheng, apelidada de “Atlântida Chinesa” pela imprensa, é uma cidade real submersa no fundo do Lago Qiandao, na província de Zhejiang, China. Ela não desapareceu por catástrofe nem por mistério: foi inundada de propósito em setembro de 1959, quando o reservatório da usina hidrelétrica de Xin’anjiang começou a encher e formou o lago artificial hoje conhecido como Lago das Mil Ilhas.
A Cidade do Leão e Suas Origens na Dinastia Tang

Shi Cheng significa “Cidade do Leão”, nome herdado da Montanha Wu Shi, a Montanha dos Cinco Leões, aos pés da qual a cidade se erguia. Ela foi fundada no quarto ano da era Wude, em 621, durante a dinastia Tang, e serviu por séculos como sede administrativa do condado de Sui’an. As muralhas que aparecem nas fotografias subaquáticas são posteriores: foram levantadas em 1513, no oitavo ano da era Zhengde, já na dinastia Ming. Boa parte da arquitetura em pedra preservada no sítio é das dinastias Ming e Qing.
Uma confusão comum merece correção. Sob o Lago Qiandao existem duas cidades antigas, não uma. Shi Cheng, de 621, é a mais conhecida. A outra é He Cheng, antiga sede do condado de Chun’an, cuja origem remonta à dinastia Han e que repousa em água mais funda. Textos que atribuem a Shi Cheng uma fundação na dinastia Han costumam estar misturando as duas.
A Decisão de Engenharia que Submergiu a Cidade
Em 1959, o governo chinês concluiu a usina hidrelétrica de Xin’anjiang, no rio Xin’an, para atender à demanda elétrica de Xangai, Hangzhou e outros centros. O enchimento do reservatório formou o Lago Qiandao, com cerca de 573 km² de espelho d’água e mais de mil ilhas, que nada mais são do que os antigos topos de morro da região.
O custo humano foi alto. Cerca de 290 mil pessoas foram realocadas, número que parte da imprensa internacional arredonda para 300 mil. Junto com as duas cidades históricas, foram ao fundo 27 distritos, mais de mil povoados e cerca de 300 mil mu de terras agrícolas, algo em torno de 20 mil hectares. Muitas famílias viviam ali havia gerações. A literatura acadêmica sobre reassentamento provocado por barragens na China trata Xin’anjiang como um dos primeiros grandes casos do país, e um dos mais duros.
A Redescoberta em 2001 e as Fotografias de 2011

Shi Cheng nunca foi uma cidade perdida no sentido literal. Sua posição sempre foi conhecida por quem morava na região. O que faltava era ver o que havia sobrado lá embaixo. Isso mudou em 2001, quando mergulhadores contratados pelo órgão de turismo do Lago Qiandao desceram até o sítio e encontraram as estruturas de pé, com muralhas, portões, arcos comemorativos e leões de guarda esculpidos em pedra.
A repercussão internacional veio dez anos depois. Em fevereiro de 2011, a revista Chinese National Geography publicou uma reportagem extensa sobre a cidade submersa, assinada por Zuo Lingren, com imagens subaquáticas do fotógrafo Wu Lixin. A revista o havia enviado ao local a partir de novembro de 2009, e ele voltou ao lago quatro vezes até reunir o material publicado. Foi essa edição que colocou Shi Cheng no noticiário mundial, e dela descende a maior parte das reportagens em inglês e em português que circulam desde então.
Por que as Ruínas se Preservaram Tão Bem
A conservação de Shi Cheng não se explica por água cristalina, ao contrário do que se lê com frequência. A visibilidade no sítio é baixa e os mergulhos dependem de iluminação artificial. O que preservou a cidade foi o isolamento. Sob dezenas de metros de água doce, as construções ficaram fora do alcance de chuva, vento, radiação solar e das variações bruscas de temperatura que corroem pedra e apodrecem madeira em superfície. A água doce também não ataca os materiais como faz a água salgada, e a escuridão limita o crescimento de organismos incrustantes. O resultado é um conjunto de vigas de madeira, telhados e relevos em pedra que envelheceu bem mais devagar do que envelheceria a céu aberto.
Levantamentos com sonar multifeixe realizados em 2002 e em 2015 permitiram comparar o terreno do sítio ao longo de treze anos e acompanhar suas alterações, trabalho publicado em revista científica com revisão por pares. É o tipo de monitoramento que a arqueologia subaquática usa para medir se um sítio está estável ou em degradação. As estruturas ficam por volta de 40 metros abaixo da superfície, com variação conforme o trecho medido.
Mergulho Recreativo Está Proibido
Por algum tempo operadoras locais levaram mergulhadores experientes ao sítio, e é dessa fase que vêm as imagens mais divulgadas. A situação mudou. Em janeiro de 2011, Shi Cheng foi inscrita na sexta lista de unidades provinciais de proteção do patrimônio cultural de Zhejiang. Em seguida, o governo do condado de Chun’an delimitou uma área de proteção sobre a cidade submersa, com proibição de aproximação de embarcações e de mergulho, motivada por preocupação com a conservação e por relatos de saques.
Quem quiser ver a cidade hoje encontra uma alternativa em terra firme. Em 2016, uma réplica de Shi Cheng foi concluída em Jiangjia, no condado de Chun’an, reproduzindo o traçado e as construções da cidade original. Antes de planejar qualquer visita, é prudente confirmar as regras vigentes junto às autoridades locais, porque o regime de acesso ao sítio já mudou mais de uma vez.
Por que a Comparação com a Atlântida Não se Sustenta
“Atlântida chinesa” é apelido de jornal, não categoria arqueológica. A Atlântida de Platão é um recurso narrativo, uma civilização imaginada que afunda como punição. Shi Cheng é o oposto em quase tudo: uma cidade documentada em registros oficiais, com data de fundação, sede de condado, muralhas datadas e moradores vivos que assistiram à mudança. A submersão não foi castigo nem acidente, foi um projeto de engenharia aprovado, executado e registrado em documento público.
O apelido pegou porque a imagem de uma cidade intacta no fundo de um lago mexe com a imaginação, mas ele confunde mais do que esclarece. O que Shi Cheng oferece não é mistério: é uma cápsula do tempo da China imperial, preservada por uma decisão humana deliberada e por um efeito colateral favorável da água doce e da escuridão.
Referências Bibliográficas
- GALLOWAY, Lindsey. “Diving China’s Atlantis of the East”. BBC Travel, 24 jul. 2014.
- JING, Yingying. “Protection of Underwater Cultural Heritage in China: New Developments”. International Journal of Cultural Policy, p. 1-9, 2017. DOI: https://doi.org/10.1080/10286632.2017.1372753
- LAU, Ka Man Lillian. Unearthing the Uniqueness of Underwater Heritage: Interpretation of Ancient Shicheng, China. Dissertação. Hong Kong: The University of Hong Kong, 2018. Disponível em: https://hub.hku.hk/handle/10722/352588
- LU, Bingbin; ZHOU, Shichao. “China’s State-Led Working Model on Protection of Underwater Cultural Heritage: Practice, Challenges, and Possible Solutions”. Marine Policy, v. 65, p. 39-47, 2016. DOI: https://doi.org/10.1016/j.marpol.2015.12.003
- YANG, Fanlin; XU, Fangzheng; ZHANG, Kai; BU, Xianhai; HU, Hao; ANOKYE, Michael. “Characterisation of Terrain Variations of an Underwater Ancient Town in Qiandao Lake”. Remote Sensing, v. 12, n. 2, art. 268, 2020. DOI: https://doi.org/10.3390/rs12020268
- YANG, Xing; HOU, Miao; WANG, Zhihuan; QI, Fei; WENG, Songgan; JU, Yan; ZHANG, Wenye. “Exploring the Challenges of People’s Resettlement in China’s Reservoirs: A Historical Perspective”. International Journal of Water Resources Development, v. 40, n. 6, p. 1053-1077, 2024. DOI: https://doi.org/10.1080/07900627.2024.2409298
- ZHEJIANG (Província, China). Governo Popular Provincial de Zhejiang. Aviso de Divulgação da Sexta Lista de Unidades Provinciais de Proteção do Patrimônio Cultural (浙政发〔2011〕2号). Hangzhou, 7 jan. 2011. Disponível em: http://wwj.zj.gov.cn/art/2020/6/12/art_1639081_46621792.html
- ZUO, Lingren. “千岛湖下有座城” [“Há uma Cidade sob o Lago Qiandao”]. Chinese National Geography (中国国家地理), n. 2, fev. 2011. Fotografias subaquáticas de Wu Lixin.
