Heracleion: A Cidade Perdida do Egito sob o Mediterrâneo

Heracleion-Thonis, uma cidade perdida submersa na costa do Egito, foi descoberta em 2000 pelo arqueólogo Franck Goddio.

Heracleion-Thonis, uma cidade perdida submersa na costa do Egito, foi descoberta em 2000 pelo arqueólogo Franck Goddio.

Heracleion, cidade portuária submersa na costa do Egito, foi localizada em 2000 pelo arqueólogo francês Franck Goddio à frente do Institut Européen d’Archéologie Sous-Marine. Antes disso, o lugar era conhecido apenas por textos gregos e egípcios antigos, a ponto de muitos historiadores duvidarem de sua existência. Situada na baía de Abu Qir, a nordeste de Alexandria, a cidade foi um grande centro de comércio e de culto no fim do período faraônico e na era helenística.

História e Importância de Heracleion

Heracleion-Thonis, uma cidade perdida submersa na costa do Egito, foi descoberta em 2000 pelo arqueólogo Franck Goddio.
Heracleion-Thonis, uma cidade perdida submersa na costa do Egito, foi descoberta em 2000 pelo arqueólogo Franck Goddio.

Fundada provavelmente por volta do século VIII a.C., Heracleion, chamada Thonis pelos egípcios, conheceu seu período de maior opulência entre os séculos VI e IV a.C. Nesse intervalo, funcionava como estação de fronteira e posto alfandegário do Egito: os navios que chegavam do mundo grego passavam por ali, e as mercadorias eram taxadas antes de seguir para Náucratis, o entreposto grego situado cerca de 70 km rio acima, no mesmo braço do Nilo.

A cidade se distribuía por ilhas e bancos de areia costurados por canais e bacias portuárias, um traçado que os arqueólogos costumam comparar ao de Veneza. Nesses canais foram registrados 69 navios e mais de 700 âncoras, um dos maiores conjuntos náuticos já documentados em um único sítio submerso. O movimento comercial ligava o delta do Nilo às cidades gregas, e entre os produtos que circulavam estavam grãos, papiro, tecidos e vinho.

O Templo de Amon-Gereb

O coração religioso da cidade era o grande templo de Amon-Gereb, forma local de Amon e uma das divindades supremas do panteão egípcio no período. Junto dele ficava o santuário de Khonsu, filho de Amon, que os gregos identificavam com Herakles. É dessa identificação que vem o nome grego da cidade: Heracleion. Ou seja, Thonis e Heracleion eram o nome egípcio e o nome grego de um mesmo lugar, algo que só ficou provado depois da escavação subaquática.

O templo era ponto de peregrinação e de cerimônias oficiais. A cidade também participava dos Mistérios de Osíris, celebrados em procissão pelas águas entre Thonis-Heracleion e a vizinha Canopus. Das ruínas saíram estátuas colossais de faraós e de deuses, naos de granito, objetos rituais e oferendas em grande quantidade, o que confirma o peso do culto na vida local.

A Estela de Thonis-Heracleion

O achado epigráfico central do sítio não é um arquivo de contratos privados, mas um documento oficial de Estado. Trata-se da Estela de Thonis-Heracleion, uma peça de granodiorito preto com cerca de 1,99 m de altura, recuperada pelo IEASM em 2000 na área do templo de Amon-Gereb. Ela traz um decreto real de 380 a.C., baixado por Nectanebo I, primeiro faraó da XXX dinastia, no primeiro ano de seu reinado.

O texto determina que parte das taxas alfandegárias cobradas em Thonis e dos impostos recolhidos sobre o comércio e a manufatura gregos em Náucratis fosse repassada ao templo de Neith, em Saís. É um registro fiscal e político, e não um contrato mercantil, mas serve exatamente para medir o volume de riqueza que passava pelo porto. Nas últimas colunas do decreto, o rei manda erguer a estela “na entrada do mar dos gregos, em uma cidade cujo nome é Thonis”, frase que amarrou o monumento ao lugar onde foi encontrado.

Uma estela quase idêntica havia sido desenterrada em Náucratis em 1899. Ter duas cópias intactas do mesmo edito, cada uma praticamente no ponto em que foi instalada na Antiguidade, é uma situação rara na arqueologia. A peça de Thonis-Heracleion está hoje no Museu Nacional de Alexandria.

Explorações Submarinas

Heracleion-Thonis, uma cidade perdida submersa na costa do Egito, foi descoberta em 2000 pelo arqueólogo Franck Goddio.
Heracleion-Thonis, uma cidade perdida submersa na costa do Egito, foi descoberta em 2000 pelo arqueólogo Franck Goddio.

A redescoberta de Heracleion virou um marco da arqueologia subaquática. A equipe de Goddio cobriu a baía de Abu Qir com magnetômetros de ressonância nuclear, sonar de varredura lateral e sísmica de alta resolução, técnica que permite mapear estruturas enterradas sob o sedimento antes de qualquer mergulho. Só depois de montar essa planta geofísica é que os mergulhadores foram abrir sondagens nos pontos promissores.

O trabalho é conduzido pelo IEASM em parceria com o Oxford Centre for Maritime Archaeology e com as autoridades egípcias de antiguidades. As campanhas seguem em curso, e a área escavada até agora corresponde a uma fração pequena do sítio, o que significa que boa parte da cidade continua sob o sedimento.

Arquitetura e Artefatos

Placa de ouro com inscrição em grego encontrada em Thonis-Heracleion, cidade submersa na costa do Egito localizada em 2000 pelo arqueólogo Franck Goddio.
Placa de ouro com inscrição em grego. O objeto é uma lâmina de metal, não um papiro: placas assim eram enterradas nos depósitos de fundação dos templos e registravam o nome do soberano que mandou erguer o edifício.
Heracleion-Thonis, uma cidade perdida submersa na costa do Egito, foi descoberta em 2000 pelo arqueólogo Franck Goddio.
Muitos artefatos de ouro foram encontrados.

Os artefatos recuperados impressionam pela quantidade e pelo estado de conservação. Saíram da água blocos com inscrições hieroglíficas, cerâmicas, estátuas colossais, joias, moedas e sarcófagos de animais votivos. As lâminas de ouro dos depósitos de fundação têm valor especial para os pesquisadores, porque trazem inscrições que ajudam a datar a construção dos templos e a identificar quem os patrocinou.

A camada de sedimento que soterrou a cidade acabou funcionando como proteção. Objetos frágeis que dificilmente sobreviveriam em um sítio terrestre chegaram inteiros ao presente, e é por isso que Thonis-Heracleion oferece um retrato tão detalhado do cotidiano portuário do delta.

Como a Cidade Afundou

Aqui está o ponto mais mal contado da história de Heracleion. A cidade não começou a declinar no século VIII d.C.: nessa altura ela já estava terminando de desaparecer sob o mar. A perda de importância começou muito antes, quando Alexandria foi fundada em 331 a.C. e passou a concentrar o comércio marítimo do Egito, esvaziando aos poucos a função de porto de entrada que Thonis exercia. O braço canópico do Nilo, que dava acesso à cidade, também foi assoreando.

Em paralelo, o terreno cedeu. A análise geoarqueológica publicada por Jean-Daniel Stanley, Franck Goddio e colegas mostra que o sítio foi rebaixado cerca de 8 metros ao longo dos últimos 2.500 anos e hoje repousa entre 5 e 7 metros de profundidade. Desse total, algo entre 4 e 5 metros vem de subsidência gradual, resultado da compactação dos sedimentos moles do delta somada à elevação relativa do nível do mar. Os outros 3 a 4 metros vêm de colapsos episódicos do substrato encharcado, desencadeados por cheias e terremotos.

O mecanismo específico desses colapsos é a liquefação do solo. O delta do Nilo é feito de argila e silte saturados de água, e a pressão de edifícios pesados combinada com uma sobrecarga súbita, como uma cheia excepcional ou um maremoto, expulsa a água presa na estrutura da argila. O material perde volume de forma abrupta e o que estava em cima afunda. A cidade foi construída sem estacas, diques ou fundações capazes de resistir a isso. Terremotos seguidos de maremotos provocaram episódios de liquefação que derrubaram sob o mar uma porção do delta estimada em cerca de 110 quilômetros quadrados, levando junto Thonis-Heracleion.

Não houve, portanto, uma catástrofe única. Foi um processo longo, de séculos, em que cheias, subsidência e terremotos se acumularam até a submersão completa no século VIII d.C.

Encontro entre Egito e Grécia

O que emerge do sítio é o retrato de uma sociedade mista. Templos egípcios convivem com dedicatórias em grego, divindades locais aparecem sob nomes helênicos e o repertório artístico combina as duas tradições. Thonis-Heracleion mostra que o contato entre Egito e Grécia começou séculos antes da conquista de Alexandre, e que a fronteira entre as duas culturas era muito mais porosa do que a divisão de períodos históricos costuma sugerir.

Referências Bibliográficas

  1. GODDIO, Franck; MASSON-BERGHOFF, Aurélia (orgs.). Sunken Cities: Egypt’s Lost Worlds. Londres: Thames & Hudson em parceria com o British Museum, 2016. Catálogo da exposição realizada no British Museum entre 19 de maio e 27 de novembro de 2016.
  2. INSTITUT EUROPÉEN D’ARCHÉOLOGIE SOUS-MARINE. “Thonis-Heracleion”. Relatório do sítio e das campanhas de escavação dirigidas por Franck Goddio. Disponível em: https://www.franckgoddio.org/projects/sunken-civilizations/heracleion/
  3. MINISTÉRIO DO TURISMO E ANTIGUIDADES DO EGITO. “Thonis-Herakleion Stela”. Ficha de acervo. Disponível em: https://egymonuments.gov.eg/en/collections/thonis-herakleion-stela
  4. ROBINSON, Damian. “The Depositional Contexts of the Ships from Thonis-Heracleion, Egypt”. International Journal of Nautical Archaeology, v. 47, n. 2, p. 325-336, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1111/1095-9270.12321
  5. ROBINSON, Damian; GODDIO, Franck (orgs.). Thonis-Heracleion in Context. Oxford Centre for Maritime Archaeology Monograph 8. Oxford: School of Archaeology, University of Oxford, 2015.
  6. STANLEY, Jean-Daniel; GODDIO, Franck; SCHNEPP, Gerard. “Nile Flooding Sank Two Ancient Cities”. Nature, v. 412, n. 6844, p. 293-294, 2001. Disponível em: https://doi.org/10.1038/35085628
  7. STANLEY, Jean-Daniel; GODDIO, Franck; JORSTAD, Thomas F.; SCHNEPP, Gerard. “Submergence of Ancient Greek Cities Off Egypt’s Nile Delta: A Cautionary Tale”. GSA Today, v. 14, n. 1, p. 4-10, 2004. Disponível em: https://doi.org/10.1130/1052-5173(2004)014%3C4:SOAGCO%3E2.0.CO;2
  8. VON BOMHARD, Anne-Sophie. The Decree of Saïs: The Stelae of Thonis-Heracleion and Naukratis. Oxford Centre for Maritime Archaeology Monograph Series. Oxford: School of Archaeology, University of Oxford, 2012. ISBN 978-1-905905-23-2.
  9. VON BOMHARD, Anne-Sophie. “Heracles and the Hone: About a Foundation Deposit from the Temple of Thonis-Heracleion”. The Journal of Egyptian Archaeology, v. 100, n. 1, p. 339-355, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1177/030751331410000118

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08/07/2024

Thonis-Heracleion foi porto e centro religioso do Egito por mais de mil anos, até afundar no Mediterrâneo. Franck Goddio localizou suas ruínas em 2000.