A Vida de Topsy Antes de Coney Island
Topsy nasceu por volta de 1875 e foi levada ainda filhote para os Estados Unidos, onde passou a vida em turnês do Forepaugh Circus, uma das maiores empresas de espetáculo itinerante do país. A rotina que a esperava era a de qualquer elefante de picadeiro no fim do século XIX: viagens de trem sem pausa, confinamento entre uma apresentação e outra, e um treinamento que se apoiava na dor para produzir obediência diante do público. Susan Nance, ao reconstruir o negócio do circo americano em Entertaining Elephants, descreve um setor que dependia de animais grandes demais para serem contidos sem violência. Peta Tait chega a uma conclusão parecida em Wild and Dangerous Performances, ao estudar a exibição de animais selvagens em picadeiro: o espetáculo vendia domínio, e domínio custava sofrimento.
Nos últimos anos de vida, Topsy já circulava por Coney Island, incorporada ao empreendimento de diversões que se tornaria o Luna Park. Ela não era mais atração principal. Tinha virado um ativo caro, difícil de manejar, e uma responsabilidade que o negócio queria dissolver.
A Decisão de Matar a Elefanta
Os jornais de 1903 atribuíam a Topsy três mortes, número que atravessou o século e ainda aparece em quase toda recontagem do caso. A documentação reunida pelo projeto Thomas A. Edison Papers, da Universidade Rutgers, registra bem menos: um homem morto em Brooklyn, em maio de 1902, depois de provocá-la, e um segundo episódio em que ela ameaçou outra pessoa. A diferença entre uma morte e três não é detalhe. É a diferença entre um animal que reagiu depois de ser provocado e a fera incontrolável descrita pela imprensa.
A decisão de matá-la partiu dos donos do Luna Park. O primeiro plano era o enforcamento, recusado pela American Society for the Prevention of Cruelty to Animals, a sociedade protetora de animais de Nova York. O método que acabou aprovado pela entidade combinava veneno e uma descarga de alta tensão, fornecida pela Edison Electric Illuminating Company of Brooklyn, concessionária local que apenas atendeu ao pedido do parque. Em 4 de janeiro de 1903, com espectadores reunidos no terreno do parque, Topsy foi morta.
Por Que a Guerra das Correntes Não Cabe Aqui
A associação entre essa morte e a chamada Guerra das Correntes é o ponto em que a versão mais repetida se afasta dos documentos. A disputa existiu e foi dura: Edison defendia a corrente contínua, enquanto George Westinghouse e Nikola Tesla apostavam na corrente alternada, e o embate decidiu qual sistema iria alimentar as cidades americanas, como reconstrói Ernest Freeberg em The Age of Edison. Só que ela se resolveu no início da década de 1890, quando a corrente alternada se firmou como padrão. Quando Topsy foi morta, em janeiro de 1903, aquela briga estava encerrada havia mais de dez anos, e Edison já não dirigia as empresas elétricas que carregavam o nome dele, incluindo a concessionária de Brooklyn que ligou a chave. Não houve coincidência de calendário. Não havia disputa em curso para a qual a morte de um elefante servisse de argumento.
O Papel Documentado da Empresa de Edison
O que está documentado é mais modesto e mais desconfortável. A Edison Manufacturing Company, braço de cinema do grupo, enviou uma equipe a Coney Island para filmar o episódio e depois vendeu o resultado em catálogo. Edison não é mencionado em nenhum dos muitos relatos jornalísticos publicados na época sobre a morte de Topsy, e não há registro de que dirigentes do Luna Park, da entidade de proteção animal ou da concessionária elétrica o tenham consultado sobre qualquer coisa. Nada nos documentos indica que ele tenha escolhido o método, negociado a autorização ou acompanhado a execução.
Nada disso absolve a empresa. Uma companhia com o nome dele estampado despachou operadores para registrar a morte de um animal, montou o filme e o comercializou como produto. O lucro foi real, a exploração foi real, e a única coisa que a checagem desfaz é a figura do inventor como autor da sentença.
O Filme Electrocuting an Elephant
Electrocuting an Elephant é um filme curto, sem narração, feito no formato que sustentava a indústria cinematográfica de 1903: o cinema de atualidades, que levava às telas incêndios, desfiles, corridas e desastres poucos dias depois de acontecerem. Topsy entrou nesse catálogo como notícia, não como peça publicitária contra a corrente alternada. A leitura propagandística veio depois, quando o episódio já circulava longe do contexto em que foi produzido.
O filme sobreviveu e continua acessível, o que explica boa parte da longevidade do caso. Poucos episódios de crueldade contra animais no início do século XX deixaram imagem em movimento. Topsy deixou.
A Lenda, o Fato e o Legado de Topsy
A lenda é sedutora porque tem vilão com nome, motivo claro e moral fechada. Um inventor famoso mataria um animal para ganhar uma queda de braço comercial. A história que os documentos sustentam é mais difícil de contar e bem mais dura: ninguém célebre precisou decidir nada. Um parque de diversões concluiu que uma elefanta explorada desde filhote tinha deixado de ser lucrativa e passado a ser risco, e resolveu o problema com os meios que tinha à mão, diante de uma plateia, com autorização de uma sociedade protetora e assistência de uma concessionária de energia. A morte de Topsy não foi um experimento científico. Foi descarte administrado.
O episódio ficou como marco no debate sobre o uso de animais em espetáculos. A mudança não foi imediata e levou décadas para virar norma, mas o número de circo com elefantes em cena foi perdendo aceitação até se tornar alvo de restrição ou proibição em vários países. Quando o caso é contado como duelo de titãs da eletricidade, essa parte se perde, e Topsy volta a ser o que já foi em vida: figurante na história de outra pessoa.
Referências Bibliográficas
- Freeberg, Ernest. The Age of Edison: Electric Light and the Invention of Modern America. Penguin Press, 2013.
- Nance, Susan. Entertaining Elephants: Animal Agency and the Business of the American Circus. Johns Hopkins University Press, 2013.
- Tait, Peta. Wild and Dangerous Performances: Animals, Emotions, Circus. Palgrave Macmillan, 2012.
- Thomas A. Edison Papers. “Myth Buster: Topsy the Elephant.” Rutgers University. https://edison.rutgers.edu/life-of-edison/essaying-edison/essay/myth-buster-topsy-the-elephant.
