Pep, o Cachorro Prisioneiro: A História Real do Cão da Eastern State

A história de Pep ganhou notoriedade em parte devido ao famoso "mugshot" do cachorro, que circulou amplamente na mídia. Na foto, Pep aparece com um número de identificação, semelhante aos prisioneiros humanos.

A história de Pep ganhou notoriedade em parte devido ao famoso "mugshot" do cachorro, que circulou amplamente na mídia. Na foto, Pep aparece com um número de identificação, semelhante aos prisioneiros humanos.

A foto é autêntica e continua sendo uma das imagens mais reproduzidas da história prisional americana: um Labrador preto, cabeça baixa, orelhas para trás, com uma placa de identificação pendurada no pescoço. O cão se chamava Pep, chegou à Eastern State Penitentiary, em Filadélfia, no segundo semestre de 1924, e recebeu o número de registro C-2559. O que a imagem não conta é que Pep nunca foi condenado por crime nenhum. A história de que ele teria pegado prisão perpétua por matar o gato da esposa do governador da Pensilvânia nasceu numa redação de jornal, não num tribunal.

Um Cão de Presente para uma Penitenciária

Quem levou Pep para a penitenciária foi o próprio governador Gifford Pinchot. A documentação preservada mostra um motivo bem menos romanesco do que a lenda: Pinchot havia lido que o governador do Maine doara um cão à prisão estadual daquele estado e quis repetir a ideia na Pensilvânia. Numa carta ao diretor da Eastern State, John Groome, escreveu que aquela notícia o motivara a fazer o mesmo, se houvesse concordância da administração. Groome respondeu que gostaria muito de receber o animal e que ele seria uma boa adição àquela comunidade, pedindo que se acertassem os detalhes para trazê-lo a Filadélfia.

Essa troca de cartas foi localizada por Dick Fulmer, conselheiro correcional que trabalhou na penitenciária entre 1966 e 1970 e depois se dedicou a pesquisar a passagem de Pep pela instituição. O achado está registrado na transcrição oficial do audioguia do museu, hoje instalado no prédio. Os papéis de Gifford Pinchot, incluindo a correspondência de seus dois mandatos como governador, estão sob guarda da Divisão de Manuscritos da Library of Congress, em Washington.

A Lenda do Gato e o Registro C-2559

A versão que ficou famosa dizia outra coisa. Segundo os jornais de 1924, Pep havia matado o gato de estimação da primeira-dama Cornelia Bryce Pinchot e fora sentenciado pelo marido à prisão perpétua, sem direito a condicional. O detalhe que deu sobrevida à história é que a penitenciária de fato abriu ficha para o cão. Pep foi fotografado no padrão dos presos, recebeu o número C-2559 e, no livro de entrada da prisão, esse número aparece pulado na sequência.

O museu trata esse conjunto como parte da brincadeira administrativa da casa, não como prova de condenação. A leitura que a instituição adota hoje é a de Fulmer: a correspondência entre governador e diretor absolve Pep de ter matado o gato de alguém e faz dele um convidado, não um prisioneiro.

Há divergência sobre a data exata da chegada. A transcrição do audioguia da Eastern State registra 12 de agosto de 1924. Boa parte da bibliografia e da imprensa posterior aponta 31 de agosto de 1924, e é possível que a primeira data corresponda à abertura do registro e a segunda à entrada efetiva do animal. Nenhuma fonte consultada resolve a questão de forma definitiva.

Janeiro de 1926: A Família Pinchot Vai à Imprensa

A anedota rodou o país e passou a incomodar. Em janeiro de 1926, Cornelia Bryce Pinchot procurou The New York Times para desmentir a versão do gato assassinado. A edição de 14 de janeiro trouxe a declaração dela na página 2, sob o título “Mrs. Pinchot Clears Record of Her Dog”. No dia seguinte, o jornal publicou na página 20 um editorial dedicado ao caso, “The Penitentiary Dog”.

O esforço de correção teve efeito limitado. Uma história de cão condenado por assassinato circula melhor do que a de um cão doado para fazer companhia a presos, e a versão desmentida seguiu sendo reproduzida por décadas, quase sempre acompanhada da mesma fotografia.

O Fim da História, em Graterford

Pep envelheceu dentro do sistema prisional da Pensilvânia. A cobertura de imprensa sobre o caso indica que ele foi transferido para a fazenda prisional de Graterford, onde teria mais espaço, e que morreu em 1930. Não há na Eastern State marco ou sepultura do animal, e o que se conhece de seus últimos anos vem sobretudo de relatos jornalísticos, não de documentação administrativa.

De Pep aos Programas Prisionais com Animais

O episódio se encaixa num movimento maior. O veterinário Earl O. Strimple, ao reconstituir a história da interação entre presos e animais em instituições americanas, aponta como precedente documentado a troca de cartas de agosto de 1919 entre o secretário do Interior Franklin K. Lane e William Alanson White, superintendente do hospital psiquiátrico do governo em Washington, sobre levar cães para conviver com os internos. Strimple também desfaz outro mito próximo, o do “Birdman de Alcatraz”: Robert Stroud criou canários em Leavenworth, não em Alcatraz, onde não havia animais de estimação.

Programas estruturados de treinamento de cães por pessoas presas só se espalharam a partir dos anos 1970, e a literatura da área trata os resultados com prudência, falando em evidência preliminar de ganhos em habilidades e em redução de reincidência, com pedido explícito de mais estudos financiados. Pep não foi um programa de terapia assistida e não há dados sobre o efeito dele no humor ou no comportamento da população carcerária da Eastern State. O que existe é a intenção declarada de Pinchot em carta e o interesse posterior por experiências desse tipo.

O Que É Registro e o Que É Lenda

As camadas do caso se separam bem. É registro documental: a doação feita pelo governador Pinchot em 1924, a correspondência com o diretor John Groome, o número C-2559 atribuído ao cão e a fotografia no padrão de identificação da penitenciária. É lenda jornalística: o gato morto, o julgamento, a sentença de prisão perpétua e a ideia de que Pep cumpria pena.

A história continua divertida sem a parte inventada. Um governador conservacionista mandou o próprio Labrador para uma das prisões mais duras dos Estados Unidos porque acreditava que companhia e afeto fariam diferença ali dentro, a administração entrou na brincadeira e abriu ficha para o animal, e a piada interna escapou pelo portão e virou notícia internacional que nem a primeira-dama do estado conseguiu desmentir.

Referências Bibliográficas

  1. Dolan, Francis X. Eastern State Penitentiary. Charleston: Arcadia Publishing, 2007.
  2. Eastern State Penitentiary Historic Site. Eastern State Penitentiary Historic Site Audio Tour Script, seções 14 e 64. Filadélfia: Eastern State Penitentiary Historic Site, 2019. Disponível em: https://easternstate.org/uploads/media/ESP_English_Audio_Tour_Transcript.pdf
  3. Jalongo, Mary Renck. Prison Dog Programs: Renewal and Rehabilitation in Correctional Facilities. Cham: Springer, 2019.
  4. Library of Congress, Manuscript Division. Gifford Pinchot Papers, 1770-1972. Washington, D.C.: Library of Congress. Disponível em: https://www.loc.gov/item/mm78036277/
  5. New York Times, The. “Mrs. Pinchot Clears Record of Her Dog”. Nova York, 14 de janeiro de 1926, p. 2.
  6. New York Times, The. “The Penitentiary Dog”. Nova York, 15 de janeiro de 1926, p. 20.
  7. Rowan, Tommy. “A Dog Began His Sentence at Eastern State Penitentiary on This Week in Philly History”. The Philadelphia Inquirer, 5 de setembro de 2025.
  8. Strimple, Earl O. “A History of Prison Inmate-Animal Interaction Programs”. American Behavioral Scientist, vol. 47, n. 1, 2003, p. 70-78. DOI: https://doi.org/10.1177/0002764203255212

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27/06/2024

Pep chegou à Eastern State Penitentiary em 1924 e ganhou número de prisioneiro. A história de que teria sido condenado por matar um gato nasceu na imprensa.