Chateau Lafite Rothschild 1787: A Garrafa Atribuída a Thomas Jefferson

Garrafa do Chateau Lafite Rothschild de 1787 com as iniciais Th.J. gravadas no vidro, exemplar arrematado por Christopher Forbes na Christie's de Londres em 1985.

Garrafa do Chateau Lafite Rothschild de 1787 arrematada por Christopher Forbes em 1985 na Christie's de Londres, com as iniciais Th.J. gravadas no vidro e atribuídas a Thomas Jefferson pelo negociante Hardy Rodenstock, atribuição hoje contestada pela perícia do processo de Bill Koch e pela ausência de registro nos arquivos de Monticello.

O Chateau Lafite Rothschild de 1787 é um dos vinhos mais icônicos e historicamente significativos do mundo, conhecido não apenas por sua origem em uma das vinícolas mais prestigiadas de Bordeaux, mas também pela associação, hoje contestada, com Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos e um dos primeiros colecionadores e entusiastas de vinhos finos na América.

Chateau Lafite Rothschild

O Chateau Lafite Rothschild, que em 1787 ainda se chamava apenas Château Lafite e só passaria à família Rothschild em 1868, é uma das quatro vinícolas originais classificadas como Premier Cru na classificação oficial de vinhos de Bordeaux de 1855. Localizado na região de Pauillac, na margem esquerda do rio Gironde, o Lafite Rothschild tem uma ilustre e longa história de produção de vinhos finos, sendo reconhecido por sua excelência desde o século XVII. O vinho produzido em 1787 é particularmente notável por ter sido parte de uma safra excepcional, o que o tornou altamente desejável tanto na época quanto nos séculos seguintes.

Uma das garrafas mais famosas do Chateau Lafite Rothschild de 1787 veio a público em 1985, quando Christopher Forbes arrematou a garrafa em um leilão da Christie’s em nome do pai, o colecionador Malcolm Forbes, por 105 mil libras, cerca de US$ 156 mil na cotação da época e um preço recorde para uma garrafa de vinho. A garrafa trazia as iniciais “Th.J.” gravadas no vidro, atribuídas a Thomas Jefferson pelo negociante alemão Hardy Rodenstock, que apresentou o lote naquele ano e consignou o exemplar ao leilão. Rodenstock afirmava ter encontrado as garrafas atrás de uma parede lacrada em um porão de Paris. O anúncio gerou grande interesse e debate no mundo do vinho e entre historiadores.

Thomas Jefferson e Sua Coleção de Vinhos

Thomas Jefferson, além de ser um dos principais fundadores dos Estados Unidos, era um grande apreciador e conhecedor de vinhos. Durante seu tempo como embaixador dos Estados Unidos na França, entre 1784 e 1789, Jefferson desenvolveu uma paixão pelos vinhos europeus, especialmente pelos vinhos de Bordeaux e da Borgonha. Jefferson visitou pessoalmente várias vinícolas na França e comprou vinhos diretamente dos produtores, incluindo o Chateau Lafite Rothschild.

Jefferson era meticuloso em suas anotações sobre vinhos, registrando detalhes sobre as safras, produtores e regiões em seus diários. O futuro presidente americano também enviou muitas dessas garrafas para sua residência em Monticello, Virgínia, e para a Casa Branca, onde serviu os vinhos durante eventos diplomáticos e jantares.

Autenticidade Contestada

A autenticidade da garrafa e sua conexão com Thomas Jefferson, no entanto, são hoje amplamente contestadas. A primeira objeção surgiu ainda em 1985. Quando Rodenstock procurou a Thomas Jefferson Foundation, que administra Monticello, para propor uma degustação do lote, a instituição examinou a correspondência e os registros de compras do ex-presidente e não localizou nenhuma menção às garrafas de 1787 atribuídas a ele. Das safras apresentadas, apenas um Château d’Yquem de 1784 aparecia entre as aquisições documentadas de Jefferson, recebidas em 1788. Com base nesse levantamento, consolidado em relatório interno de dezembro daquele ano, a direção de Monticello recusou o convite e registrou suas dúvidas quanto à atribuição. A ausência de registro não prova que Jefferson jamais tenha comprado o vinho, mas retira da inscrição “Th.J.” o respaldo documental que se esperaria de um arquivo tão bem preservado.

A objeção mais concreta veio duas décadas depois. O colecionador americano Bill Koch, que havia comprado quatro garrafas do mesmo lote, encomendou exames técnicos e moveu ação contra Rodenstock em Nova York. Peritos em gravação de vidro consultados no âmbito desse processo concluíram que as iniciais tinham sido abertas com uma ferramenta elétrica de eixo flexível, do tipo empregado por dentistas e gravadores modernos, recurso inexistente no século XVIII. Pesquisas sobre os hábitos de Jefferson acrescentaram outro desencontro: ele costumava marcar seus objetos pessoais com a abreviação de época “T.I”, e não com o “Th.J.” gravado nas garrafas do lote.

No plano judicial, o caso terminou sem julgamento de mérito. A primeira ação de Koch foi rejeitada por falta de jurisdição sobre o réu, residente na Alemanha; reapresentada, ela correu à revelia, porque Rodenstock se recusou a comparecer aos Estados Unidos, e em maio de 2010 a corte federal de Manhattan fixou indenização superior a US$ 1 milhão, nunca paga. Não houve processo nem condenação criminal contra ele em nenhum país. Rodenstock morreu em 19 de maio de 2018, aos 76 anos, na Alemanha, negando as acusações até o fim.

O Chateau Lafite Rothschild 1787 estabeleceu em 1985 um recorde mundial como a garrafa de vinho mais cara já vendida em leilão, marca que se manteria por décadas. O episódio se tornou um dos casos mais estudados de falsificação no mercado de vinhos raros. O que sustentava aquele valor, porém, era a ponte imaginada entre uma adega de Bordeaux e a fundação dos Estados Unidos, e é justamente essa ponte que a documentação disponível hoje não sustenta.

Referências Bibliográficas

  1. Broadbent, Michael. Vintage Wine: Fifty Years of Tasting Three Centuries of Wines. Harcourt, 2002.
  2. Johnson, Hugh. The World Atlas of Wine. Mitchell Beazley, 2013.
  3. Koch v. Christie’s International PLC, 699 F.3d 141 (2d Cir. 2012). Disponível em: caselaw.findlaw.com.
  4. Phillips, Rod. A Short History of Wine. Harper Perennial, 2002.
  5. Robinson, Jancis. The Oxford Companion to Wine. Oxford University Press, 2015.
  6. Wallace, Benjamin. The Billionaire’s Vinegar: The Mystery of the World’s Most Expensive Bottle of Wine. Crown Publishing Group, 2008.
  7. Winterthur Museum. Treasures on Trial: The Art and Science of Detecting Fakes – Wine. Winterthur, Delaware. Disponível em: treasuresontrial.winterthur.org.

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23/08/2024

Vendida em 1985 como a garrafa de Thomas Jefferson, a Chateau Lafite Rothschild 1787 bateu recorde em leilão e virou um dos casos de falsificação mais estudados do mundo do vinho.