As múmias de Venzone são um conjunto de corpos naturalmente preservados no município de Venzone, província de Udine, na região italiana do Friuli-Venezia Giulia. Foram retirados de sepulturas da catedral de Sant’Andrea Apostolo e correspondem a mortes ocorridas entre 1348 e 1881, segundo o registro do próprio município. O que sustenta o interesse pelo caso não é apenas o estado de conservação dos corpos, mas o fato de que a causa dessa preservação continua sem explicação fechada.
São restos humanos de pessoas que viveram e foram sepultadas em Venzone. Este texto trata do que a pesquisa consegue afirmar sobre elas e, principalmente, do que não consegue.
A Descoberta de 1647
Em 1647, obras de ampliação da catedral expuseram uma sepultura do século XIV situada sob a atual Capela do Rosário. Dentro dela havia um corpo ressecado e íntegro, que ficou conhecido na cidade como o Corcunda. Ao longo dos dois séculos seguintes, outras sepulturas próximas ao altar-mor revelaram corpos no mesmo estado.
O levantamento mais detalhado do período é o de F. Savorgnan de Brazza, que contabilizou 21 corpos encontrados até 1835 e mais 20 entre 1835 e 1906, num total de 42. Ele registrou também que apenas onze sepulturas da catedral apresentavam a propriedade e que a transformação se completava em pouco mais de um ano após o sepultamento. Em 1845, os corpos foram transferidos da cripta da catedral para a capela superior. Em 1881, o cemitério interno à catedral foi desativado e transferido para fora das muralhas, o que encerrou a série.
A Hipótese do Fungo Nasceu em 1906
A explicação mais repetida sobre Venzone atribui a preservação a um fungo. Ela não vem da ciência recente. Vem de um ensaio de F. Savorgnan de Brazza publicado na revista francesa Cosmos em 3 de novembro de 1906 e traduzido no mesmo ano pela revista norte-americana The Literary Digest, na edição de 29 de dezembro, sob o título “A Fungus That Makes Mummies”.
De Brazza descreveu traços de um fungo parasita microscópico em várias partes dos corpos e também sobre os caixões de madeira. O texto de 1906 grafa o organismo como Hypha tombicina; na literatura italiana posterior ele aparece como Hypha bombicina Pers. Pela hipótese, o fungo absorveria a umidade dos tecidos com rapidez suficiente para secar o corpo antes que a decomposição avançasse.
O próprio artigo de 1906 registra um limite decisivo: as tentativas de transplantar e cultivar o organismo fracassaram, e as condições que garantiriam sua vida e reprodução eram desconhecidas. De Brazza afirmava ainda não haver nas sepulturas sais de nitro, alumina ou cal, e concluía que a causa seria biológica, não química.
O Que a Pesquisa Sustenta Hoje
A hipótese do fungo nunca deixou de ser hipótese. O organismo não foi isolado nem cultivado, e a atribuição feita em 1906 não foi confirmada de forma independente. Apresentá-la como descoberta da ciência moderna inverte a cronologia: ela é a explicação antiga, não a conclusão atual.
A literatura de referência sobre múmias de criptas e catacumbas trata Venzone como caso de dessecação acidental, resultado provável de uma combinação incomum de fatores. Entre os apontados estão a estabilidade de temperatura e umidade nas sepulturas, a composição do subsolo, com destaque para o teor de sulfato de cálcio, e as características da madeira dos caixões. Nenhum desses fatores foi isolado como causa suficiente, e a hipótese química chega a contrariar o que De Brazza observou em 1906.
O registro oficial do município de Venzone reflete essa cautela. A descrição institucional atribui os corpos a condições ambientais particulares das sepulturas, sem nomear agente único. No estado atual do conhecimento, a formulação honesta é que a causa permanece sem explicação definitiva.
O Terremoto de 1976 e o Que Restou
Em 6 de maio de 1976, um terremoto de magnitude 6,5 atingiu o Friul, com epicentro no médio vale do rio Tagliamento. Uma réplica de magnitude 5,9, em 15 de setembro do mesmo ano, provocou novas destruições. O saldo geral foi de 965 mortos, segundo o Departamento de Proteção Civil da Itália. Venzone estava entre as localidades mais atingidas e a catedral de Sant’Andrea Apostolo veio abaixo.
Os corpos guardados na capela de San Michele ficaram sob os escombros. Dos 21 que ali estavam conservados, 15 foram retirados praticamente íntegros. A reconstrução da cidade seguiu o critério de refazer os edifícios no lugar original e na forma original, com a catedral remontada a partir do material recuperado.
Onde as Múmias Estão Hoje
Cinco corpos estão expostos na cripta da capela cemiterial de San Michele, no adro da catedral de Sant’Andrea Apostolo, em Venzone. A exposição é permanente, com horários distintos no verão e no inverno. Os demais corpos recuperados em 1976 não integram a mostra.
O município trata o conjunto como patrimônio de interesse antropológico, útil para entender as condições de vida no Friul de séculos passados. É esse o enquadramento que a visita merece.
Referências Bibliográficas
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