A múmia de San Pedro é um dos casos mais citados da arqueologia popular norte-americana. Um corpo mumificado de menos de vinte centímetros, encontrado sentado dentro de uma cavidade rochosa no Wyoming, sustentou por décadas a ideia de que teria existido uma raça de gente pequena nas Montanhas Rochosas. Os antropólogos que examinaram o espécime chegaram a outra conclusão, bem mais sóbria: trata-se dos restos de um recém-nascido com anencefalia.
O Achado no Condado de Carbon
Dois garimpeiros, Cecil Main e Frank Carr, dinamitaram uma parede de granito nas Montanhas Pedro, no condado de Carbon, cerca de 95 quilômetros a sudoeste de Casper, perto do reservatório Pathfinder. A explosão abriu uma pequena câmara natural, e dentro dela estava o corpo mumificado, em posição sentada, com as pernas cruzadas.
A data exata do achado não é consensual. A maior parte das publicações registra outubro de 1932. Já o verbete da Wyoming State Historical Society se apoia num depoimento juramentado assinado pelo próprio garimpeiro em novembro de 1936, que aponta junho de 1934. O sobrenome dele também aparece grafado como Mayne em parte das fontes. A divergência segue em aberto e nenhum documento conhecido a resolve.
As medidas variam conforme a fonte. Sentado, o corpo tinha entre 15 e 18 centímetros. Se estivesse em pé, as estimativas mais repetidas giram em torno de 43 centímetros. O peso não chegava a meio quilo.
Do Balcão de Farmácia à Vitrine de Casper
Nos anos seguintes o corpo circulou como atração paga. Ficou exposto na vitrine de uma farmácia em Meeteetse e passou por feiras itinerantes. Na década de 1940 foi comprado por Ivan Goodman, dono de uma revenda de automóveis em Casper, que o montou sobre uma base de madeira, cobriu com uma redoma de vidro e o anunciou como um pigmeu de 65 anos preservado tal como teria vivido.
O que os Raios X Mostraram
O espécime foi examinado por pesquisadores ligados a instituições reconhecidas. Harry L. Shapiro, curador de antropologia biológica do American Museum of Natural History, em Nova York, analisou o corpo e produziu radiografias. Décadas depois, George W. Gill, professor de antropologia biológica da University of Wyoming, recebeu os filmes das mãos de Shapiro e os examinou.
Os dois chegaram à mesma leitura: o corpo era quase certamente o de um bebê humano, natimorto ou morto pouco depois do nascimento, com anencefalia, a ausência congênita de grande parte do encéfalo. A malformação altera a formação do crânio e deixa o esqueleto com uma aparência que, à primeira vista, foi lida como adulta. Os relatos antigos que descreviam dentição completa e vértebras de adulto nascem desse engano.
A conclusão ganhou reforço na década de 1990. Depois que o caso foi ao ar num programa de televisão em 1994, um fazendeiro do Wyoming procurou Gill com um segundo corpo mumificado, encontrado na mesma região muitos anos antes. Esse espécime, conhecido como Chiquita, passou por datação por radiocarbono, exame de DNA e radiografias. A datação situou o corpo entre os séculos XVI e XVIII, o DNA apontou ascendência indígena norte-americana e o diagnóstico de anencefalia se confirmou.
Convém não perder de vista o que está em jogo: são restos humanos de crianças que não sobreviveram ao nascimento e que foram exibidas por décadas como curiosidade de vitrine.
As Tradições Indígenas sobre os Pequenos Seres
A associação entre o achado e as histórias de gente pequena não nasceu com os garimpeiros. Povos das Montanhas Rochosas mantêm tradições antigas sobre seres de pequena estatura. Entre os Shoshone do Wind River, o antropólogo Åke Hultkrantz registrou espíritos anões no conjunto de entidades que compõem a cosmologia do povo, ao lado dos espíritos guardiões e dos seres das águas. Relatos de lideranças Arapaho e Shoshone sobre esses seres aparecem em registros históricos do Wyoming, e o nome Nimerigar circula na literatura de divulgação.
Essas narrativas são tradição cultural documentada e têm valor próprio, independente do que a arqueologia conclua sobre um corpo específico. Tratá-las como prova material de uma população em miniatura inverte a relação e transforma repertório oral em evidência física, coisa que a tradição nunca se propôs a ser.
Outro ponto costuma ser confundido. Boa parte dos textos populares liga o achado aos Sheep Eaters, ou Tukudeka, apresentados como um povo de baixa estatura. O nome, porém, é uma designação alimentar, do tipo que os Shoshone aplicavam a grupos conforme o que caçavam ou colhiam em determinado momento e lugar. Quem passava a viver onde havia pinhões virava comedor de pinhões. Não se trata de uma etnia distinta nem de gente pequena.
Um Paradeiro Ainda Desconhecido
Em 1950 Goodman levou o corpo a Nova York e o entregou a Leonard Wadler, um empresário interessado no caso, para que fosse estudado. Goodman adoeceu e morreu naquele mesmo ano. A múmia nunca voltou para a família e nunca mais foi localizada. As radiografias originais também se perderam.
Sem o espécime, não há como aplicar as técnicas disponíveis hoje. O que resta é a documentação: anotações, correspondência, fotografias e recortes reunidos no acervo do American Heritage Center, da University of Wyoming. A identificação do corpo, essa sim, já está estabelecida.
Referências Bibliográficas
- American Heritage Center, University of Wyoming. Wyoming Mummy Collection, 1929-1991. Laramie: University of Wyoming. Disponível em: https://archiveswest.orbiscascade.org/ark:80444/xv109142.
- Feder, Kenneth L. Frauds, Myths, and Mysteries: Science and Pseudoscience in Archaeology. New York: Oxford University Press, 2017.
- Hein, Rebecca. “The Mountain Shoshone”. WyoHistory.org, Wyoming State Historical Society, 9 de maio de 2018. Disponível em: https://www.wyohistory.org/encyclopedia/mountain-shoshone.
- Hein, Rebecca. “The Pedro Mountain Mummy”. WyoHistory.org, Wyoming State Historical Society, 8 de novembro de 2014. Disponível em: https://www.wyohistory.org/encyclopedia/pedro-mountain-mummy.
- Hultkrantz, Åke. “Diversity in Cosmology: The Case of the Wind River Shoshoni”. The Canadian Journal of Native Studies, v. 7, n. 2, p. 279-295, 1987. Disponível em: https://cjns.brandonu.ca/wp-content/uploads/7-2-Hultkrantz.pdf.
- Loendorf, Lawrence L.; Stone, Nancy Medaris. Mountain Spirit: The Sheep Eater Indians of Yellowstone. Salt Lake City: University of Utah Press, 2006.
