Barry foi um cão do hospício do Grande São Bernardo que viveu entre 1800 e 1814 e se tornou o cão de resgate mais conhecido do mundo. A fama sobreviveu ao animal com tanta força que boa parte do que se conta sobre ele hoje pertence à lenda, e não ao registro histórico. O Museu de História Natural de Berna, que guarda o corpo preservado de Barry desde o século XIX, dedica desde 2014 uma exposição permanente justamente a separar o que aconteceu do que foi inventado depois.
O Hospício do Grande São Bernardo

O hospício foi erguido no século XI por Bernardo de Menthon, canonizado em 1123, como uma casa de pedra simples no ponto mais alto da passagem. Ali os cônegos agostinianos ofereciam cama, comida e abrigo a qualquer pessoa que chegasse, sem perguntar quem era. A porta do hospício não é trancada há quase mil anos, pela razão prática de que alguém pode precisar de socorro a qualquer hora.
Naquela altitude a neve é possível em todos os meses do ano. Os viajantes da época de Barry costumavam ser pobres e mal equipados: mercenários, criados, diaristas em busca de trabalho, comerciantes com mercadorias e peregrinos. Para reduzir o número de mortes, guias locais a serviço dos cônegos, chamados marroniers, percorriam diariamente os caminhos que levavam ao hospício.
Origens dos Cães do Hospício
Os primeiros cães aparecem no hospício por volta das décadas de 1660 e 1670, e a presença deles está registrada em documentos de 1695 e em um relato escrito do próprio hospício de 1707. A função original era de guarda. Só depois os marroniers passaram a levá-los nas rondas.
Esses animais não eram cães de avalanche no sentido moderno. Eram companheiros robustos com tarefas concretas: encontrar as trilhas cobertas de neve, abrir caminho na neve profunda, avisar os condutores com latidos quando havia alguém exausto ou soterrado e indicar o rumo de volta ao hospício graças ao excelente senso de orientação. A parceria entre homens e cães durou mais de duzentos anos e salvou mais de duas mil pessoas.
Até bem entrado o século XX os cães do hospício não formavam uma raça definida. Eram uma mistura de cães de trabalho resistentes, escolhidos pela aptidão ao clima e não pela aparência. A padronização veio de fora: criadores começaram a trabalhar o exterior do animal a partir de meados do século XIX, o tipo pesado se firmou por volta de 1900 e o São Bernardo foi reconhecido como cão nacional suíço em 1887.
Barry, o Mais Famoso Cão do Grande São Bernardo
Barry nasceu em 1800 no próprio hospício e se tornou o auxiliar mais incansável da equipe. Já era conhecido em vida. Em 1816, dois anos após a morte do cão, o professor de história natural F. Meisner escreveu que lhe era agradável pensar que aquele animal fiel não seria esquecido tão cedo.
Quantas Pessoas Barry Salvou de Fato
O número que circula é de cerca de 40 pessoas, e ele aparece de forma consistente em todas as fontes antigas. A ressalva importante vem do próprio museu que guarda o animal: os arquivistas do hospício não mantinham diários sobre cães individuais, de modo que nenhum detalhe das ações de resgate de Barry foi preservado e não é possível verificar todos os fatos e datas.
Ou seja, a cifra é o que a tradição transmitiu de maneira uniforme, não um total apurado caso a caso. Barry foi com certeza um cão de hospício especialmente capaz, mas atrás de cada resgate estavam os homens do hospício, que muitas vezes arriscavam a própria vida nas operações.
O episódio mais repetido, o do menino meio congelado que Barry teria encontrado e carregado nas costas até o hospício, é lenda. História semelhante já circulava antes de Barry nascer e foi recontada por muitos autores em versões diferentes, sem nunca ter sido confirmada. Além disso, nem o São Bernardo mais forte e mais esperto de hoje teria condição física ou mental de executar esse resgate.
O Barrilete de Conhaque Nunca Existiu
A imagem do São Bernardo descendo a montanha com um pequeno barril de bebida pendurado no pescoço é o detalhe mais famoso da história e também o mais falso. Os cães do hospício nunca carregaram barril algum como equipamento de resgate.
O que existiu foi outra coisa: alguns cães estavam acostumados a levar de vez em quando pequenas cargas com mantimentos. O barrilete pertence ao campo da fantasia. Ele começou a aparecer em imagens no fim do século XIX e virou marca registrada, um caso bem-sucedido de marketing precoce. Em 1956, um capelão do hospício encerrou o assunto ao declarar que em nenhum momento os cães carregaram esses barris.
A origem da imagem costuma ser atribuída à pintura Alpine Mastiffs Reanimating a Distressed Traveller, que Edwin Landseer concluiu em 1820, quando tinha por volta de 18 anos e nunca havia posto os pés nos Alpes que retratou. A tela foi exibida na British Institution e hoje pertence à National Gallery of Art, em Washington. Há uma nuance nessa atribuição: o museu de Berna situa a difusão do barrilete nas imagens apenas no fim do século XIX, o que sugere que a tela de Landseer funcionou como ponto de partida de um clichê que só se tornou universal décadas depois.
Há ainda um problema médico na lenda, e ele é sério. Álcool é exatamente o que não se deve oferecer a alguém em hipotermia. A bebida provoca vasodilatação periférica, o que aumenta a perda de calor pelo corpo e atrapalha a manutenção da temperatura interna. As diretrizes clínicas da Wilderness Medical Society para hipotermia acidental orientam evitar álcool diante de exposição ao frio e recomendam, para a vítima consciente e com tremores, líquidos e alimentos ricos em carboidratos. O barril de conhaque não teria salvado ninguém. Teria piorado o quadro.
Como Barry Realmente Morreu
Barry não morreu em serviço. Em 1812, já velho e cansado, foi levado por um servidor do mosteiro do hospício até a cidade de Berna. Por que isso foi feito e onde o animal passou os dois últimos anos de vida seguem sem resposta, porque não há informação confiável a respeito. Ele morreu em 1814, em Berna, de velhice.
A versão romanceada diz que Barry salvou 40 pessoas e foi morto pela quadragésima primeira, um soldado napoleônico que o teria confundido com um lobo e o atravessado com uma baioneta. Alguns elementos do cenário são reais: havia lobos na região do Grande São Bernardo naquele período, e como corços e veados estavam quase extintos os animais chegavam perto de pessoas em busca de comida. Soldados que voltavam do serviço sob Napoleão também cruzavam a passagem. O desfecho, porém, é impossível. Barry estava em Berna, bem cuidado, quando morreu.
O Corpo Preservado no Museu de História Natural de Berna
Depois da morte do cão, o prior do Grande São Bernardo mandou preparar a peça taxidermizada para a posteridade, e ela foi exposta no primeiro museu de história natural de Berna. O corpo está na cidade desde então.
A aparência atual não é a original. Em 1923 o taxidermista Georg Ruprecht refez completamente a montagem segundo as práticas de sua época, e a postura resultante é mais heroica do que a primeira. A pele é autêntica, e o crânio original de Barry também está exposto. Em junho de 2014, exatos duzentos anos após a morte do animal, o Museu de História Natural de Berna abriu a exposição permanente dedicada a ele, construída em torno da tensão entre o mito e o que a documentação sustenta.
O Legado de Barry
Em 2005 os cônegos abriram mão do canil e o entregaram à Fondation Barry du Grand-Saint-Bernard, criada para essa finalidade e sediada em Martigny. A fundação mantém o programa de criação mais antigo do mundo para o cão nacional suíço, e por tradição o melhor filhote macho de cada ninhada recebe o nome de Barry, em memória do primeiro.
Os São Bernardos de hoje não atuam mais em resgate de montanha. O animal ficou maior, mais pesado e de pelagem mais longa do que o cão de trabalho do tempo de Barry. Em compensação, o temperamento equilibrado os tornou excelentes cães de terapia e de assistência social. Fora da Suíça, o nome de Barry também foi eternizado em um monumento no Cimetière des Chiens, o cemitério de animais de Asnières-sur-Seine, nos arredores de Paris, erguido pela administração do local no início do século XX.
Referências Bibliográficas
- Dow, Jennifer; Giesbrecht, Gordon G.; Danzl, Daniel F. et al. “Wilderness Medical Society Clinical Practice Guidelines for the Out-of-Hospital Evaluation and Treatment of Accidental Hypothermia: 2019 Update”. Wilderness & Environmental Medicine, v. 30, n. 4S, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.wem.2019.10.002
- Fondation Barry du Grand-Saint-Bernard. “Histoire de l’élevage des chiens du Saint-Bernard”. Martigny, Suíça. Disponível em: https://www.fondation-barry.ch/en/breeding/history-53/
- National Gallery of Art. “Alpine Mastiffs Reanimating a Distressed Traveler”, de Edwin Landseer, 1820, óleo sobre tela, número de acervo 2019.120.1. Washington, D.C. Disponível em: https://www.nga.gov/artworks/220510-alpine-mastiffs-reanimating-distressed-traveler
- Naturhistorisches Museum Bern. “Barry, the Legendary St Bernard Dog”, exposição permanente aberta em junho de 2014. Berna, Suíça. Disponível em: https://www.nmbe.ch/en/exhibitions/barry
- Nussbaumer, Marc. Barry vom Grossen St. Bernhard. Berna: Naturhistorisches Museum der Burgergemeinde Bern, 2000.
- Strahm, Dora. Barry: der legendäre Bernhardinerhund. Berna: Naturhistorisches Museum der Burgergemeinde Bern, 2014. ISBN 978-3-907088-34-0.
