Gordon “Whipped Peter”: A História da Foto e do Nome em Disputa

Fotografia de 1863 em dois painéis. À esquerda, o homem conhecido como Gordon ou Peter aparece sentado de perfil, com as costas cobertas por cicatrizes de açoites, em registro feito em Baton Rouge, na Louisiana. À direita, o retrato de época de um homem negro de chapéu e casaco gastos.

Fotografia de 1863 em dois painéis. À esquerda, o homem conhecido como Gordon ou Peter aparece sentado de perfil, com as costas cobertas por cicatrizes de açoites, em registro feito em Baton Rouge, na Louisiana. À direita, o retrato de época de um homem negro de chapéu e casaco gastos.

Gordon e “Whipped Peter” são os nomes pelos quais ficou conhecido o homem cuja fotografia de costas marcadas por açoites se tornou um dos símbolos mais fortes da denúncia da escravidão nos Estados Unidos. A imagem foi feita em Baton Rouge, na Louisiana, em abril de 1863, e circulou pelo Norte durante a Guerra Civil Americana como prova visual da violência do sistema escravagista. O nome, porém, não é consenso: Gordon vem da reportagem “A Typical Negro”, publicada sem assinatura pela Harper’s Weekly em 4 de julho de 1863, enquanto a cópia da mesma fotografia guardada no National Archives traz inscrição de época que chama o retratado de Peter.

A História de Gordon

Em 1863, durante a Guerra Civil Americana, o homem retratado fugiu da plantação onde era escravizado e alcançou as linhas do Exército da União em Baton Rouge, na Louisiana, onde a fotografia foi registrada em 2 de abril daquele ano. A origem da fuga não é registrada de forma uniforme: o Metropolitan Museum of Art descreve o retratado como fugitivo do Mississippi, mesma indicação da reportagem “A Typical Negro”, enquanto a inscrição de época na cópia guardada no National Archives situa a plantação na Louisiana, na região do rio Atchafalaya. O relato que se popularizou é o da Harper’s Weekly, e o historiador David Silkenat, em artigo de 2014 na revista American Nineteenth Century History, sustenta que esse texto reuniu episódios de mais de um fugitivo, razão pela qual os detalhes biográficos que circulam desde então pedem cautela.

O que tornou o caso célebre foi a fotografia feita durante um exame médico no acampamento da União, que expôs as cicatrizes de açoites nas costas do fugitivo. As marcas eram resultado de castigos aplicados na plantação, e a imagem passou a ser usada como prova da brutalidade da escravidão. Reproduzida em jornais e revistas da época, a fotografia deu à campanha abolicionista um argumento que dispensava descrição e ampliou o alcance do debate sobre o fim da escravidão nos Estados Unidos.

A Imagem das Costas Marcadas

A fotografia, atribuída aos fotógrafos McPherson e Oliver nos catálogos da Library of Congress e do Metropolitan Museum of Art, serviu como peça de campanha abolicionista. Sua circulação pelo Norte durante a guerra manteve o assunto no centro do debate público e somou-se à pressão sobre o governo dos Estados Unidos pelo fim da escravidão.

A imagem também alcançou leitores que até então conheciam a violência da escravidão apenas por relatos escritos. Diante da fotografia, o castigo físico deixava de ser abstração e ganhava um corpo, o de uma pessoa escravizada que sobreviveu para ser fotografada.

A vida do homem retratado, depois da fuga e da circulação das imagens, seguiu um caminho pouco documentado. A fotografia, essa sim, continua a ser estudada como peça central da história da escravidão nos Estados Unidos e do uso da imagem como prova pública.

A Identidade do Retratado em Disputa

O nome pelo qual esse homem ficou conhecido é objeto de discussão entre historiadores. A cópia da fotografia preservada no National Archives and Records Administration traz uma inscrição manuscrita da época, apresentada como transcrição das palavras do próprio retratado, que o identifica como Peter e atribui os açoites ao feitor Artayou Carrier. O nome Gordon, por sua vez, aparece na reportagem “A Typical Negro”, publicada sem assinatura pela Harper’s Weekly em 4 de julho de 1863, que apresentou ao público um conjunto de três imagens e uma biografia contínua.

Em artigo publicado em 2014 na revista American Nineteenth Century History, o historiador David Silkenat reúne a documentação disponível e conclui que a reportagem provavelmente fundiu histórias de homens diferentes. Silkenat aponta uma carta assinada “Bostonian” e publicada no New York Tribune em 3 de dezembro de 1863, segundo a qual Gordon e Peter eram dois fugitivos distintos do mesmo grupo interrogado em Baton Rouge: Peter seria o homem da fotografia das costas, e Gordon, outro fugitivo, retratado em uma das imagens laterais do conjunto. Em outra camada do mesmo argumento, Silkenat sustenta, com base na comparação de traços fisionômicos, que essas imagens laterais talvez não mostrem nem Peter nem Gordon, e sim um terceiro homem, que o ilustrador Vincent Colyer identificou, em livro de 1864, como Furney Bryant, ex-escravizado da Carolina do Norte.

A disputa não está encerrada. A evidência reunida por Silkenat é forte a favor de Peter para a fotografia das costas, mas não fecha a questão, e o caso segue indexado sob os dois nomes em acervos e na cultura popular. A leitura do próprio historiador é que a construção de um personagem único e célebre se deu à custa das trajetórias individuais dos homens que apareceram naquelas imagens, cujos nomes a documentação da época preservou de forma fragmentada.

O Filme “Emancipation” (2022)

O filme “Emancipation” (2022), estrelado por Will Smith, é inspirado na história por trás da fotografia. O protagonista se chama Peter, e não Gordon: a produção adotou o nome que consta na inscrição da cópia original da imagem, justamente o ponto em disputa entre historiadores. O longa retrata a fuga de uma plantação na Louisiana e a travessia dos pântanos em busca da liberdade, e acompanha a determinação do personagem diante dos horrores da escravidão e o peso que aquela fotografia teve na campanha pela emancipação nos Estados Unidos.

Referências Bibliográficas

  1. Blassingame, John W. The Slave Community: Plantation Life in the Antebellum South. Oxford University Press, 1972.
  2. Collins, Kathleen. “The Scourged Back.” History of Photography, v. 9, n. 1, 1985. https://doi.org/10.1080/03087298.1985.10442251.
  3. “[Escaped slave Gordon, also known as ‘Whipped Peter,’ showing his scarred back at a medical examination, Baton Rouge, Louisiana].” Library of Congress, 1863. https://www.loc.gov/item/2018648117/.
  4. Genovese, Eugene D. Roll, Jordan, Roll: The World the Slaves Made. Pantheon Books, 1974.
  5. “Gordon, A Runaway Mississippi Slave, or ‘The Scourged Back’.” The Metropolitan Museum of Art, 1863. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/830991.
  6. “Overseer Artayou Carrier Whipped Me. I Was Two Months in Bed Sore from the Whipping.” [Fotografia com inscrição de época identificando o retratado como Peter]. National Archives and Records Administration, National Archives Identifier 533232, 2 abr. 1863. https://catalog.archives.gov/id/533232.
  7. Silkenat, David. “‘A Typical Negro’: Gordon, Peter, Vincent Colyer, and the Story behind Slavery’s Most Famous Photograph.” American Nineteenth Century History, v. 15, n. 2, 2014. https://doi.org/10.1080/14664658.2014.939807.
  8. Stampp, Kenneth M. The Peculiar Institution: Slavery in the Ante-Bellum South. Alfred A. Knopf, 1956.

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29/08/2024

A fotografia das costas marcadas por açoites tornou-se um dos símbolos da luta contra a escravidão nos Estados Unidos. O nome do homem retratado, Gordon ou Peter, segue em disputa entre historiadores.