Em 6 de agosto de 1945, a bomba atômica lançada sobre Hiroshima produziu uma destruição sem precedentes, e para quem sobreviveu o horror não terminou com o clarão da explosão. Quase três décadas depois, centenas de sobreviventes pegaram lápis e papel para registrar o que tinham visto naqueles dias. O desenho de Ogawa Sagami é um dos mais duros desse conjunto: um tanque de água tomado por corpos, com outros corpos caídos em volta. A ficha do museu situa a cena em Nakajima-hon-machi, a 260 metros do hipocentro, por volta das onze da manhã de 8 de agosto de 1945, dois dias depois da explosão. A obra pertence ao acervo do Hiroshima Peace Memorial Museum, onde está catalogada sob o código GE15-44.
O Acervo de Desenhos do Museu Memorial da Paz

A coleta começou com um gesto individual. Em junho de 1974, um sobrevivente levou à emissora NHK de Hiroshima um desenho que havia feito da cena que presenciou. A emissora transformou o episódio isolado em chamada pública e pediu que outros hibakusha, como ficaram conhecidos os sobreviventes da bomba, desenhassem suas lembranças. A resposta trouxe 2.225 desenhos. Uma segunda chamada, em 2002, reuniu o próprio museu, a NHK, o jornal Chugoku Shimbun e outras entidades, e acrescentou mais 1.338 obras ao conjunto. O museu guarda hoje cerca de cinco mil desenhos desse tipo.
O museu apresenta esse material como registro deixado por quem viveu o bombardeio, feito com a vontade de que as gerações seguintes soubessem o que havia acontecido. É esse o sentido que a própria instituição dá ao acervo: testemunho e memória, pela mão de quem estava lá.
A Visão de Ogawa Sagami
Ogawa Sagami nasceu em 1917 e tinha 28 anos no dia da explosão. Desenhou a cena aos 57, quando atendeu a chamada da NHK. A ficha catalográfica registra o que ele viu em Nakajima-hon-machi, a 260 metros do hipocentro, na manhã de 8 de agosto: um dos poucos relatos visuais do que havia restado tão perto do ponto zero. A imagem circula hoje muito além de Hiroshima: foi reproduzida pelo projeto acadêmico Visualizing Cultures, do Massachusetts Institute of Technology, e pelo site Children of the Atomic Bomb, hospedado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles.
Corpos no Tanque de Água

A descrição do museu para o desenho é seca: os corpos dentro do tanque estavam inchados e avermelhados, enquanto os que ficaram ao redor apareciam carbonizados e encolhidos. O tanque era uma cisterna de combate a incêndio, dessas espalhadas pela cidade. O museu registra os dois estados sem explicar o que produziu cada um, e o desenho tampouco responde por si: guarda o que Sagami encontrou ali na manhã do dia 8, duas formas de morte separadas por poucos metros.
Um Testemunho que a Fotografia Não Registrou
O desenho preserva o que nenhuma câmera captou naquelas ruas, e é daí que vem o seu valor documental. A simplicidade do traço de Sagami trabalha a favor do registro: a folha guarda uma cena específica, com posição, cor e disposição dos corpos, do jeito que ficou na lembrança de quem a viu. O que a linguagem escrita não alcançava, o lápis conseguiu delimitar, e o resultado atravessa oito décadas sem precisar de tradução.
Arte Como Testemunho e Denúncia Contra o Esquecimento

Os desenhos dos hibakusha cumprem hoje duas funções que se sustentam uma à outra. São documentos históricos, usados por museus e por projetos acadêmicos para reconstituir o que se passou no chão de Hiroshima e de Nagasaki. E são peças de um argumento antinuclear: ao mostrar o que uma única bomba fez a corpos concretos, em ruas com nome, essas folhas de papel dizem sobre armas atômicas algo que nenhum número agregado consegue dizer.
Children of the Atomic Bomb: O Projeto de James N. Yamazaki
O nome “Children of the Atomic Bomb” aparece com frequência ao lado desses desenhos, mas designa outra coisa. Em 1949, o pediatra James N. Yamazaki foi enviado a Nagasaki pela Atomic Bomb Casualty Commission, órgão do governo dos Estados Unidos, para estudar os efeitos da radiação sobre crianças e fetos expostos ao bombardeio. Em 1951, passou a integrar o recém-criado departamento de pediatria da Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde seguiu como professor clínico, e em 1995 reuniu essa experiência num livro de memórias com o mesmo título. É um levantamento médico, com cronologia e história próprias, e dele vem o site que hoje hospeda uma reprodução do desenho de Sagami. O acervo de onde a obra saiu, porém, é o do museu de Hiroshima.
Oito décadas depois, o desenho de Ogawa Sagami continua catalogado e exposto, com nome, idade, local, data e hora da cena anotados na ficha. É pouco diante do que a folha mostra, e é exatamente o que os sobreviventes pediram ao pegar o lápis: que ficasse registrado.
Referências Bibliográficas
- “3-1-6 Emotion Carried by the Brush.” Hiroshima Peace Memorial Museum, exposição permanente, s.d. https://hpmmuseum.jp/modules/exhibition/index.php?action=ItemView&item_id=114&lang=eng.
- “A-bomb Drawings by Survivors.” Hiroshima Peace Memorial Museum, s.d. https://hpmm-db.jp/picture_en/.
- “Documenting Hiroshima 80 Years After A-Bombing: In June 1974, Call for Submission of Drawings of A-Bombing from Survivors Begins.” Chugoku Shimbun, Hiroshima Peace Media Center, s.d.
- “Ground Zero 1945: Pictures by Atomic Bomb Survivors.” Visualizing Cultures, Massachusetts Institute of Technology, 2008.
- Japan Broadcasting Corporation (NHK), ed. Unforgettable Fire: Pictures Drawn by Atomic Bomb Survivors. Pantheon Books, 1981.
- “OGAWA Sagami, GE15-44.” Children of the Atomic Bomb, UCLA Asian American Studies Center, s.d. https://www.aasc.ucla.edu/cab/gz/15_44.html.
- Yamazaki, James N. Children of the Atomic Bomb: An American Physician’s Memoir of Nagasaki, Hiroshima, and the Marshall Islands. Duke University Press, 1995.
