Em abril de 1960, estudantes negros vindos de dez estados do sul dos Estados Unidos criaram, na Shaw University, em Raleigh, na Carolina do Norte, o Student Nonviolent Coordinating Committee, o Comitê Coordenador Estudantil Não Violento, conhecido pela sigla SNCC. A palavra “coordenador” no nome descreve a função real da entidade: ela surgiu para articular protestos que já estavam em curso em dezenas de cidades, não para inventá-los. Nos anos seguintes, essa rede de jovens ativistas levou o enfrentamento da segregação para condados rurais do Alabama e do Mississippi, onde as organizações nacionais mais estruturadas quase não conseguiam trabalhar.
Os Sit-ins Vieram Antes do Comitê
Em 1º de fevereiro de 1960, quatro calouros negros do North Carolina Agricultural and Technical College, instituição historicamente negra, sentaram-se no balcão da loja Woolworth de Greensboro reservado a clientes brancos. Eram Ezell Blair Jr., Franklin McCain, Joseph McNeil e David Richmond. Não foram atendidos e ficaram nos bancos até o fechamento. Voltaram nos dias seguintes, em número cada vez maior.
Naquela data o SNCC ainda não existia. Os sit-ins de Greensboro vieram antes da fundação do comitê e foram a razão de ele existir. Em uma semana o protesto chegou a Durham e Winston-Salem; em dez dias havia ocupações de balcões fora da Carolina do Norte. Em Nashville, estudantes que desde novembro de 1959 treinavam resistência não violenta nos seminários do reverendo James Lawson, entre eles John Lewis e Diane Nash, entraram na onda com disciplina de ação já formada. O problema prático da primavera de 1960 era outro: como impedir que tanta iniciativa dispersa se perdesse.
Ella Baker e a Conferência que Criou o SNCC
A resposta veio de Ella Baker, então secretária executiva da Southern Christian Leadership Conference (SCLC). Veterana de décadas de organização de base no NAACP, ela convenceu Martin Luther King Jr. e a direção da SCLC a liberar 800 dólares, quantia relevante para o orçamento apertado da entidade, e convocou as lideranças dos sit-ins para uma conferência na Shaw University no fim de semana da Páscoa de abril de 1960. As estimativas de participação variam de 150 a 300 delegados, bem acima do que os organizadores esperavam.
Baker fez mais do que viabilizar o encontro. Ela defendeu que os estudantes constituíssem organização própria, com direção autônoma, em vez de virarem departamento jovem da SCLC ou de qualquer outra entidade adulta. Sua posição está sintetizada no texto “Bigger Than a Hamburger”, de 1960, em que argumenta que o objetivo daquela geração era maior do que o direito de ser servido num balcão de lanchonete. A tese prevaleceu, e é a razão de o SNCC ter desenvolvido um método próprio, centrado em organizadores de campo que moravam nas comunidades onde atuavam.
A conferência criou um comitê de coordenação inicialmente temporário. Ele se reuniu pela primeira vez em Atlanta, em 13 de maio de 1960, e elegeu Marion Barry como primeiro presidente. Em outubro daquele ano, em nova conferência em Atlanta, o SNCC se firmou como organização permanente, com sede na cidade.
Freedom Rides: do CORE ao SNCC
As freedom rides também não foram invenção do SNCC. A campanha começou em 4 de maio de 1961, organizada pelo Congress of Racial Equality (CORE), sob direção de James Farmer, com treze voluntários negros e brancos que saíram de Washington rumo a Nova Orleans. O objetivo era testar na prática a decisão Boynton v. Virginia, de dezembro de 1960, na qual a Suprema Corte estendeu a proibição da segregação às instalações usadas por passageiros interestaduais, como restaurantes e banheiros de rodoviárias.
Em 14 de maio de 1961, o ônibus da Greyhound foi cercado em Anniston, no Alabama, por uma multidão branca armada e ligada à Ku Klux Klan. A polícia local, avisada horas antes de que o grupo se reunia na rodoviária, só apareceu depois do início do ataque. Nos arredores da cidade, alguém atirou uma bomba incendiária pela janela quebrada e parte da multidão tentou bloquear a porta para manter os passageiros dentro do ônibus em chamas. Eles conseguiram sair e foram espancados do lado de fora. No mesmo dia, em Birmingham, os viajantes do ônibus da Trailways foram agredidos no terminal, sem que a polícia comandada por Bull Connor interviesse.
Diante da violência e do risco de morte, o CORE avaliou interromper a campanha. Foi nesse ponto que o SNCC assumiu a continuidade. O Nashville Student Movement, com Diane Nash na coordenação, recrutou dez estudantes que partiram de Nashville para Birmingham em 17 de maio de 1961, com o argumento de que parar ali ensinaria que bastava agredir para deter o movimento. Presos em custódia dita protetiva e largados de madrugada perto da divisa com o Tennessee, voltaram a Birmingham e seguiram viagem para Montgomery. As viagens continuaram por meses e centenas de participantes foram presos no Mississippi. Em 22 de setembro de 1961, a pedido do procurador-geral Robert Kennedy, a Interstate Commerce Commission emitiu a ordem que proibia a segregação em ônibus e terminais interestaduais, em vigor desde 1º de novembro daquele ano.
O Trabalho de Base no Registro de Eleitores
A contribuição mais original do SNCC não foi tática de rua, e sim a organização paciente no interior. No fim do verão de 1961, Bob Moses chegou a McComb, no Mississippi, a convite de lideranças locais do NAACP como Amzie Moore e C. C. Bryant, que havia anos apontavam o registro eleitoral como chave da mudança. Os organizadores do comitê aprenderam com essas lideranças a se mover em comunidades rurais sob vigilância constante, num estado onde tentar votar podia custar o emprego, a casa ou a vida.
Esse trabalho desembocou no Freedom Summer de 1964, projeto conduzido pelo Council of Federated Organizations (COFO) com o SNCC à frente, que levou centenas de voluntários ao Mississippi para registrar eleitores e montar escolas de liberdade. Em junho daquele ano, os ativistas James Chaney, Andrew Goodman e Michael Schwerner foram assassinados perto de Filadélfia, no Mississippi, e seus corpos só apareceram em agosto. Naquele verão, cerca de 17 mil pessoas negras foram até os cartórios do estado e pouco mais de 1.600 conseguiram registro, tamanha a barreira imposta pelos funcionários. Da mesma campanha nasceu o Mississippi Freedom Democratic Party, que levou à Convenção Nacional Democrata de 1964, em Atlantic City, a contestação da delegação branca do estado.
Stokely Carmichael e o Black Power em 1966
A virada do SNCC tem data. Em maio de 1966, na conferência de primavera realizada em Kingston Springs, no Tennessee, Stokely Carmichael foi eleito presidente no lugar de John Lewis, em votação disputada e repetida na madrugada. Semanas depois, em 5 de junho, James Meredith iniciou sozinho a Marcha contra o Medo, de Memphis a Jackson, e foi baleado por um atirador branco no dia seguinte. As organizações de direitos civis retomaram a caminhada por ele.
Em 16 de junho de 1966, em Greenwood, no Mississippi, Carmichael discursou para uma multidão e disse que seis anos pedindo liberdade não haviam produzido resultado, e que a palavra de ordem dali em diante seria “Black Power”. A expressão já circulava antes, mas foi ali que ganhou alcance nacional. Não se tratou, portanto, de uma mudança difusa no “final da década de 1960”, e sim de um momento preciso, ligado à frustração com o ritmo das mudanças e com a violência racista que continuava impune.
Impacto e Legado do SNCC
O SNCC ajudou a produzir as duas leis que desmontaram o arcabouço legal da segregação: a Lei dos Direitos Civis de 1964 e a Lei do Direito ao Voto de 1965. O efeito prático apareceu nos números do estado onde o comitê mais insistiu: em 1967, quase 60% da população negra apta a votar no Mississippi já estava registrada, contra uma fração mínima no início da década.
A organização não sobreviveu ao próprio giro. Perdeu financiamento, quadros e projetos locais no fim dos anos 1960, passou a se chamar Student National Coordinating Committee em 1969 e deixou de funcionar no início da década seguinte. O legado ficou nas pessoas e no método. John Lewis chegou ao Congresso dos Estados Unidos, Marion Barry foi prefeito de Washington, e a ideia de Ella Baker, a de que a liderança se constrói de baixo para cima e não em torno de uma figura, continuou a orientar gerações seguintes de organização comunitária.
Referências Bibliográficas
- Branch, Taylor. Parting the Waters: America in the King Years 1954-63. Simon & Schuster, 1988.
- Carson, Clayborne. In Struggle: SNCC and the Black Awakening of the 1960s. Harvard University Press, 1995.
- Morris, Aldon D. The Origins of the Civil Rights Movement: Black Communities Organizing for Change. The Free Press, 1984.
- Payne, Charles M. I’ve Got the Light of Freedom: The Organizing Tradition and the Mississippi Freedom Struggle. University of California Press, 1995.
- Zinn, Howard. SNCC: The New Abolitionists. Beacon Press, 1964.
