O Clube dos Excêntricos, conhecido em inglês como Eccentric Club, costuma ser apresentado como uma instituição londrina em funcionamento ininterrupto desde 1781. A documentação disponível conta uma história diferente e bem mais interessante: o que existiu foram entidades distintas, separadas por décadas de interrupção, que foram herdando o mesmo nome, os mesmos símbolos e o mesmo gosto por provocar superstições.
Os Excêntricos do Século XVIII
O antiquário John Timbs, autor em 1872 de um dos primeiros levantamentos sistemáticos da vida de clube em Londres, descreve os Eccentrics como uma sociedade de convívio que se reunia numa taverna da Chandos Street, em Covent Garden, no fim do século XVIII. Era um desdobramento de outro grupo, os Brilliants, e depois passou a se encontrar no estabelecimento de Tom Rees, em May’s Buildings, na St. Martin’s Lane.
Timbs registra que o grupo teria acumulado mais de 40 mil membros ao longo de sua existência, entre eles Charles James Fox, Lord Brougham, Lord Melbourne e Richard Brinsley Sheridan. Ele próprio apresenta esse número como algo que se contava na época, não como dado apurado, e a cifra deve ser lida como tradição repetida por memorialistas vitorianos. Timbs também não fixa 1781 como ano de fundação: escreve apenas que o clube nasceu no fim do século anterior. A data de 1781, hoje estampada na comunicação do clube atual, vem da tradição interna da casa, não das fontes contemporâneas ao grupo original.
Esse primeiro núcleo não era uma sociedade de artistas dedicada a promover a criatividade. Era um clube de taverna, de sociabilidade masculina noturna, que se desfez por volta de 1846.
Três Clubes, Um Mesmo Nome
Entre o desaparecimento dos Excêntricos originais e o clube que existe hoje há pelo menos duas rupturas completas. Um segundo clube de nome semelhante funcionou na região de Leicester Square entre 1858 e 1881 e também se dissolveu. Só em 1890 surgiu a entidade que daria ao nome sua fase mais documentada.
A descontinuidade não é apenas social, é jurídica. O catálogo dos Arquivos Nacionais britânicos guarda o processo da Eccentric Club Ltd, sociedade registrada em 1891 sob o número 35305 e dissolvida antes de 1916. O registro público de empresas do Reino Unido, por sua vez, mostra uma segunda Eccentric Club, Limited, de número 00125858, constituída em 11 de dezembro de 1912, com sede em 9/11 Ryder Street. São duas pessoas jurídicas diferentes dentro de um único ciclo de vida do clube, o que já basta para desfazer a ideia de linha reta desde o século XVIII.
O Clube de 1890 e a Coruja
O clube de 1890 foi organizado em 21 de novembro daquele ano por Jack Harrison, costureiro teatral de Covent Garden, e nasceu colado ao mundo do palco. Sua primeira casa foram as antigas instalações do Pelican Club, na Denman Street, no Soho. Em 1893 mudou-se para o número 21 da Shaftesbury Avenue.
O detalhe do endereço importa porque desmente uma versão que circula com frequência. Em 1890 o clube não se instalou em Piccadilly: foi fundado no Soho e só chegou a St. James’s mais de vinte anos depois. O Survey of London, levantamento histórico e arquitetônico da capital britânica, registra que foi entre 1914 e 1915 que o clube assumiu o arrendamento do antigo Dieudonné’s Hotel, nos números 9 a 11 da Ryder Street, vindo justamente da Shaftesbury Avenue.
Da fase de Shaftesbury Avenue sobrou uma prova gráfica curiosa. Em agosto de 1898 a Eccentric Club Limited registrou direitos autorais sobre a capa do anuário da casa, descrita no registro oficial como uma coruja acima de um mostrador de relógio com os algarismos XII e IIII, cercada por figuras grotescas numeradas. A coruja virou o emblema do clube, cujos sócios ficaram conhecidos como corujas por causa do horário: o movimento forte começava à meia-noite e ia até as quatro da manhã.
Superstições à Mesa
A associação entre o nome do clube e o desafio às superstições tem origem rastreável, ainda que não seja a que o clube conta hoje. Em 1890, o mesmo ano da fundação de Harrison, o escritor e historiador William Harnett Blanch organizou em Londres um Thirteen Club, inspirado no clube homônimo criado em Nova York em 1882. O propósito era ridicularizar crenças de mau agouro: jantares com treze convidados à mesa, passagem sob escadas, espelhos quebrados de propósito.
Que o grupo de Blanch existiu de fato e circulava pela alta sociedade é algo documentado em arquivo. A Cambridge University Library guarda, entre os papéis de Lord Randolph Churchill, um convite do Thirteen Club enviado por Blanch em novembro de 1892. Com o tempo, integrantes desse círculo se aproximaram do Eccentric Club, e o jantar de sexta-feira 13 acabou incorporado ao calendário da casa.
Já a afirmação de que os Excêntricos dos anos 1780 zombavam de superstições em seus banquetes aparece na comunicação do clube atual, mas não encontra apoio nas descrições oitocentistas do grupo original. É prudente tratá-la como memória institucional construída depois, e não como fato apurado. O que se pode dizer com segurança é que o clube contemporâneo retomou o jantar de sexta-feira 13 em 2009 e o mantém como tradição.
O Fim da Ryder Street
O clube não fechou as portas em 1931. A Ryder Street foi sua casa por cerca de setenta anos, atravessando as duas guerras mundiais. Durante a Primeira Guerra os sócios ficaram conhecidos pela atividade beneficente, e no Natal a casa servia refeições gratuitas a moradores pobres de Westminster.
O desfecho veio muito mais tarde e por motivo imobiliário, não por falta de sócios. O clube encerrou as atividades em 1984, oficialmente para uma reforma, e caiu em liquidação em 1986, depois que sua controladora virou alvo de uma operação de aquisição interessada no prédio. O imóvel passou a abrigar a casa de leilões Christie’s. O registro público britânico ainda hoje mantém a Eccentric Club, Limited em situação de liquidação, com as contas do exercício encerrado em 31 de dezembro de 1984 nunca entregues.
O Relançamento de 2008
Em agosto de 2008 um grupo formado por antigos sócios e por recrutas vindos de outros clubes londrinos relançou o Eccentric Club. A entidade reivindica a linhagem de 1781 e adota os símbolos herdados, a começar pela coruja, e registra que o príncipe Philip aceitou ser seu patrono ainda naquele ano.
Aqui também a versão popular precisa de ajuste. O clube relançado não abriu sede em Mayfair nem mantém biblioteca e salas de leitura próprias. O próprio clube informa que não possui uma sede permanente e realiza suas atividades em instalações cedidas por outros clubes de Londres. O endereço registrado fica na Old Gloucester Street, em Bloomsbury.
O Que a Documentação Sustenta
Separar continuidade de reuso do nome deixa a história mais nítida. É continuidade documentada o período de 1890 a 1986, com o clube funcionando sem interrupção conhecida, ainda que sob duas sociedades diferentes. É reuso do nome a ligação entre esse clube e os Excêntricos de Covent Garden, extintos em 1846, e igualmente a ligação com o clube de Leicester Square dos anos 1858 a 1881. E é reivindicação institucional, não fato verificado, a linha contínua desde 1781.
Nada disso diminui o clube. A história da sociabilidade masculina em Londres, estudada por historiadores como Amy Milne-Smith, mostra que inventar tradições era parte central do funcionamento dessas casas. Herdar um nome antigo, uma coruja e um jantar de sexta-feira 13 era exatamente o tipo de gesto que dava a um clube novo o peso de um clube velho.
Referências Bibliográficas
- Cambridge University Library, Department of Manuscripts and University Archives. “Blanch, William Harnett; Invitation from the Thirteen Club”, novembro de 1892. Papers of Lord Randolph Churchill, Add. MS 9248/28/4022. Disponível em: https://discovery.nationalarchives.gov.uk/details/r/a90688f9-ee28-4eae-aec0-bb32e2265534
- Clark, Peter. British Clubs and Societies 1580-1800: The Origins of an Associational World. Oxford: Oxford University Press, 2000.
- Companies House. “Eccentric Club, Limited: company number 00125858”. Find and Update Company Information. Cardiff: Companies House, Governo do Reino Unido. Disponível em: https://find-and-update.company-information.service.gov.uk/company/00125858
- Gunn, Simon. The Public Culture of the Victorian Middle Class: Ritual and Authority in the English Industrial City, 1840-1914. Manchester: Manchester University Press, 2000.
- Milne-Smith, Amy. “A Flight to Domesticity? Making a Home in the Gentlemen’s Clubs of London, 1880-1914”. The Journal of British Studies, v. 45, n. 4, p. 796-818, out. 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1086/505958
- The National Archives, Kew. “Company No: 35305; Eccentric Club Ltd. Incorporated in 1891. Dissolved before 1916”. Board of Trade: Companies Registration Office: Files of Dissolved Companies, BT 31/5210/35305. Disponível em: https://discovery.nationalarchives.gov.uk/details/r/C4826935
- The National Archives, Kew. “Drawing of Design for cover of book ‘The Eccentric Club Annual'”, 5 de agosto de 1898. Copyright Office: Entry Forms, COPY 1/143A/267. Disponível em: https://discovery.nationalarchives.gov.uk/details/r/C21948840
- Sheppard, F. H. W. (ed.). “Ryder Street”. In: Survey of London: Volumes 29 and 30, St James Westminster, Part 1. Londres: London County Council, 1960, p. 317-321. British History Online, Institute of Historical Research, University of London. Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/survey-london/vols29-30/pt1/pp317-321
- Timbs, John. Clubs and Club Life in London: With Anecdotes of Its Famous Coffee Houses, Hostelries, and Taverns. Londres: John Camden Hotten, 1872.
