Em 13 de setembro de 1962, o fotógrafo britânico Jim Meads apertou o obturador no instante em que um caça English Electric Lightning despencava sobre Hatfield, no condado de Hertfordshire. Poucos metros à frente do avião, ainda no ar e de cabeça para baixo, aparece o piloto de testes George Aird, ejetado segundos antes. A cena se tornou uma das fotografias de aviação mais reproduzidas do século XX.
O Voo de Testes que Terminou em Hatfield
A aeronave era o English Electric Lightning F1 de prefixo XG332, número de fabricação 95021. Voou pela primeira vez em 29 de maio de 1959 e passou a vida operacional em ensaios dos mísseis ar-ar Firestreak e Red Top, registrada em nome da British Aircraft Corporation e cedida à de Havilland, segundo o registro do acidente mantido pelo Aviation Safety Network. O XG332 pertencia ao lote inicial de vinte exemplares de pré-série do programa, o mesmo que forneceu ao Royal Air Force Museum o XG337, hoje preservado no acervo.
Isso explica por que um interceptador da English Electric operava de um aeródromo associado à de Havilland. Os mísseis Firestreak e Red Top eram fabricados pela de Havilland Propellers, subsidiária do grupo, cuja planta principal estava em Hatfield desde a virada dos anos 1930, quando a empresa comprou o terreno e transferiu a produção. O Red Top, evolução direta do Firestreak, entraria em serviço em 1964 justamente nos esquadrões de Lightning.
No voo daquele dia surgiu fogo na zona de pós-combustão. Combustível não queimado acumulado na fuselagem traseira foi inflamado por uma pequena trinca no tubo de escape e comprometeu a ancoragem do atuador do estabilizador. O comando do estabilizador falhou com o avião a cerca de trinta metros de altura, já na aproximação final. O nariz subiu de forma abrupta, e foi essa mudança de atitude que abriu a fração de segundo necessária para o disparo do assento ejetável.
A Estufa de Tomates que Salvou George Aird
Aird não escapou com ferimentos leves. O assento o lançou contra o telhado de vidro de uma estufa de tomates, a poucos metros da cabeceira da pista. Ele atravessou a cobertura, fraturou as duas pernas e a coxa direita, perdeu a consciência no impacto e só despertou quando os jatos de água fria do sistema de irrigação da estufa começaram a atingi-lo. É essa a sequência descrita no registro do acidente. Retrospectivas posteriores acrescentam os cortes provocados pela chuva de vidro, detalhe que o registro técnico não menciona.
A estufa é o elemento decisivo da história, e não um detalhe pitoresco. A ejeção aconteceu em altura baixa demais para o paraquedas se abrir por completo, e a cobertura frágil cedeu no impacto em vez de oferecer uma superfície rígida. Sobreviver àquela sequência dependeu de onde o assento caiu.
Jim Meads Não Era Fotógrafo Amador
O crédito da foto costuma vir acompanhado da lenda do amador de sorte. Não é o caso. Jim Meads deixou a escola aos 16 anos para entrar na de Havilland Aircraft Company como fotógrafo aprendiz, cumpriu o serviço militar na RAF e depois passou a trabalhar com o pai, Frank H. Meads, fotógrafo esportivo já estabelecido, de quem herdou o método de fotografar em movimento.
A carreira atravessou mais de sete décadas. Em 1996 ele já completava cinquenta anos consecutivos como fotógrafo do Peterborough Royal Foxhound Show, acompanhou 520 matilhas no Reino Unido, na Irlanda e nos Estados Unidos, publicou cinco livros a partir de 1979 e teve o acervo incorporado pelo British Sporting Art Trust. Morreu em junho de 2024, aos 93 anos, reconhecido como um dos grandes nomes da fotografia de caça a cavalo.
A presença dele na cabeceira da pista também não foi puro acaso. Um vizinho, piloto de testes da própria de Havilland, havia contado onde o caça voaria naquele dia, e Meads saiu de casa com os dois filhos pequenos e a câmera para ver a passagem. O enquadramento que ele preparava era o das crianças com o avião ao fundo. O que entrou no visor foi outra coisa.
O Retorno ao Voo e o Alcance da Imagem
Aird se recuperou das fraturas e voltou a voar. A autora especializada em segurança de voo Sylvia Wrigley registra que a recuperação levou cerca de seis meses e que ele tornou a pilotar Lightnings dentro de um ano, informação que não aparece em documento oficial localizado nesta apuração.
A fotografia foi publicada em jornais do mundo inteiro ainda em 1962 e se tornou o trabalho mais conhecido de Meads, apesar de a obra dele estar ligada à caça a cavalo. O Lightning, por sua vez, acumulou um histórico de acidentes que virou tema de livro: Lightning Eject, de Peter Caygill, reúne as ocorrências do tipo em ordem cronológica a partir de relatórios oficiais, inquéritos e depoimentos de pilotos.
O que as Fontes Confirmam e o que Segue em Aberto
O próprio registro do Aviation Safety Network avisa que a apuração desse acidente se apoia em fontes não oficiais, o que recomenda cautela com os detalhes técnicos. Três pontos muito repetidos na internet seguem sem confirmação documental:
- Data do voo. O registro do acidente e a maior parte das retrospectivas apontam 13 de setembro de 1962, uma quinta-feira. Um relato isolado indica 19 de setembro, sem apresentar documento que sustente a mudança.
- Suposto veto oficial à publicação. Circula a versão de que o Ministério da Defesa britânico tentou barrar a foto com um D-Notice. Não localizamos documento oficial que confirme o episódio.
- Valor pago pela imagem. Textos de divulgação citam mil libras pagas pelo Daily Mirror pelos direitos. A cifra aparece sempre sem fonte primária.
Referências Bibliográficas
- Aviation Safety Network. “Accident English Electric Lightning F1 XG332, Thursday 13 September 1962”. ASN Aviation Safety WikiBase, registro 56567. Flight Safety Foundation. Disponível em: https://asn.flightsafety.org/wikibase/56567.
- Caygill, Peter. Lightning Eject: The Dubious Safety Record of Britain’s Only Supersonic Fighter. Barnsley: Pen & Sword Aviation, 2012.
- Jones, Eleanor. “His Monochrome Photographs Grace the Houses of Many: Farewell to Legendary Photographer”. Horse & Hound, 23 de junho de 2024.
- Royal Air Force Museum. “English Electric Lightning F1/P1B”. Collections. Disponível em: https://www.rafmuseum.org.uk/research/collections/english-electric-lightning-f1-p1b/.
- Royal Air Force Museum. “Hatfield”. De Havilland: The Man and the Company, exposição de arquivo. Disponível em: https://www.rafmuseum.org.uk/research/archive-exhibitions/de-havilland-the-man-and-the-company/hatfield/.
- Royal Air Force Museum. “Hawker-Siddeley Red Top: Air to Air Missile”. Collections. Disponível em: https://www.rafmuseum.org.uk/research/collections/hawker-siddeley-red-top-air-to-air-missile/.
- Royal Air Force Museum. “Other Companies”. De Havilland: The Man and the Company, exposição de arquivo. Disponível em: https://www.rafmuseum.org.uk/research/archive-exhibitions/de-havilland-the-man-and-the-company/other-companies/.
- Wrigley, Sylvia. “The Story Behind an Unbelievable Photograph”. Fear of Landing, 1 de novembro de 2013.
