Em 1923, o professor Harvey E. Stork fotografou um grupo de estudantes do Carleton College, em Northfield, Minnesota. O acervo do Carleton College Archives registra a imagem sob um título só: Karleton Kosmopolitan Klub. Não era seita nem sociedade secreta, e sim o clube que reunia estudantes estrangeiros e norte-americanos da faculdade.
O Que Eram os Cosmopolitan Clubs
O clube do Carleton pertence a uma história maior, e essa parte é bem documentada. O movimento dos Cosmopolitan Clubs nasceu na Universidade de Wisconsin em 1903, quando estudantes criaram ali um International Club. A ideia se espalhou rápido: em 1907, oito universidades norte-americanas se juntaram para formar uma entidade nacional, a Association of Cosmopolitan Clubs. Em 1913, quando a Universidade de Iowa sediou a convenção anual, a associação já reunia trinta capítulos.
O propósito era direto: aproximar estudantes estrangeiros e norte-americanos para promover cooperação internacional e paz mundial. O lema do movimento, repetido nos documentos dos capítulos, era “Above all nations is humanity”, isto é, acima de todas as nações está a humanidade. A associação norte-americana se ligou à Corda Fratres, federação internacional de estudantes fundada em Turim, na Itália, em 1898, e os capítulos passaram a receber suas cartas de fundação em nome da Corda Fratres Association of Cosmopolitan Clubs.
O tamanho do movimento nos anos 1920 aparece nos registros das convenções. Entre 26 e 29 de dezembro de 1923, a Universidade de Indiana sediou a 17ª convenção nacional, com 77 delegados de quinze nacionalidades, e naquele ano o capítulo de Indiana funcionou como capítulo executivo de todos os Cosmopolitan Clubs dos Estados Unidos. A pesquisa acadêmica credita ao movimento um papel pioneiro no atendimento a estudantes estrangeiros nas universidades norte-americanas, prática que depois se institucionalizou na figura do conselheiro de estudantes internacionais.
O Clube do Carleton College
Sobre o capítulo do Carleton, a documentação disponível online é escassa, e convém dizer isso com clareza em vez de preencher o vazio com suposição. O que existe de firme são dois registros fotográficos no acervo do Carleton College Archives, ambos feitos por Harvey E. Stork, professor da casa que também dirigiu a formação do arboreto da faculdade a partir de 1927.
O primeiro é a fotografia de grupo de 1923, catalogada como Karleton Kosmopolitan Klub, classificada pelo arquivo nos assuntos atividades estudantis e fotografias de grupo, guardada na caixa 3 sob o identificador stork00763. O segundo é uma imagem de 1924 do Homecoming, a festa anual de ex-alunos, que mostra o carro alegórico do Cosmopolitan Club no Laird Stadium. Os dois registros, tomados juntos, indicam que o clube existia, tinha nome próprio e participava da vida pública do campus.
O contexto internacional do Carleton naquele momento não era pequeno. Em 1922, a faculdade lançou o programa Carleton-in-China, que enviava representantes recém-formados para ensinar inglês em uma escola missionária em Fenchow, em períodos de dois anos, e o manteve na maior parte dos anos seguintes até 1949. Uma instituição com esse tipo de circulação tinha razões práticas para abrigar um clube de estudantes estrangeiros.
Quem Aparece na Fotografia
O registro digitalizado da foto de 1923 não traz a lista de nomes: o campo reservado às pessoas retratadas está vazio. A identificação nominal aparece em outro instrumento do Carleton College Archives, o inventário de impressões fotográficas do período de 1920 a 1930, que associa à imagem os nomes Mostafa Abbassi, Victor Bellina, F. W. Gross, Fang Kang Huang, Dorothy Pattee, Shuman, Homer B. Wellman e Horace G. Wellman.
Esse inventário não pôde ser consultado diretamente durante esta apuração, porque o servidor do banco de dados do arquivo recusou as conexões. Os nomes acima são reproduzidos como constam da catalogação indexada do arquivo, e não como verificação independente de quem esteve diante da câmera. A lista, ainda assim, diz alguma coisa: um Abbassi, um Bellina, um Huang e uma Pattee no mesmo grupo descrevem exatamente o tipo de convivência que os Cosmopolitan Clubs existiam para promover.
Por Que a Sigla Coincide com a da Ku Klux Klan
As iniciais do Karleton Kosmopolitan Klub formam KKK. A coincidência é de letras, e nada além disso.
A Ku Klux Klan foi uma organização terrorista de supremacia branca. Criada por veteranos confederados em 1866 e desmontada pela legislação federal de 1871, ela renasceu em 1915 com nova estrutura, impulsionada pelo filme “O Nascimento de uma Nação”, e chegou nos anos 1920 a um patamar de adesão que historiadores estimam entre 25% e 30% da população protestante do país. Seus alvos eram negros, judeus, católicos e imigrantes. Seu repertório ia do boicote econômico e da intimidação social ao linchamento.
Minnesota não ficou de fora, e é aqui que a coincidência fica desconfortável. Em 15 de junho de 1920, em Duluth, uma multidão branca assassinou Elias Clayton, Elmer Jackson e Isaac McGhie, três trabalhadores de circo negros acusados sem qualquer base de um estupro. Calcula-se que dez mil pessoas tenham comparecido ao linchamento. O estado aprovou em 1921 a primeira lei antilinchamento do país, e naquele mesmo ano a Klan começou a se organizar em Minnesota, recrutando milhares de pessoas para o que as pesquisadoras Elizabeth Dorsey Hatle e Nancy M. Vaillancourt descreveram como seu evangelho de supremacia protestante branca. Em 1923, o ano da fotografia do Carleton, a Klan tentou publicamente derrotar a reeleição do prefeito de Minneapolis, George Leach.
Enquanto um grupo de estudantes de várias nacionalidades posava para uma foto em Northfield, portanto, a Klan operava no mesmo estado contra exatamente o tipo de convivência que aquele grupo representava. Os dois não têm parentesco, não têm continuidade e não são versões um do outro. Não existiu, nem poderia existir, uma Ku Klux Klan benigna. O que existiu foi um clube estudantil cujo nome trocou o C de Carleton e o C de Cosmopolitan pela letra K, produzindo por acidente uma sigla infeliz. Nenhum documento localizado nesta apuração explica por que a grafia foi escolhida.
O Que o Arquivo Ainda Não Responde
Boa parte das perguntas naturais sobre o Karleton Kosmopolitan Klub segue sem resposta documentada nas fontes acessíveis online.
Não se sabe em que ano o clube foi fundado no Carleton, quantos membros teve, com que frequência se reunia ou o que fazia além de posar para Stork e desfilar no Homecoming. Também não foi possível confirmar se ele era capítulo formalmente filiado à Association of Cosmopolitan Clubs ou apenas um grupo local que adotou o nome e o espírito do movimento. Os inventários da associação nacional, guardados na Universidade de Illinois, e os registros de capítulos como o de Indiana não trazem o Carleton nas listas que puderam ser consultadas.
Nada disso significa que a documentação não exista. Significa que ela está, muito provavelmente, em papel, nas caixas do Carleton College Archives, no jornal estudantil The Carletonian e nos anuários Algol dos anos 1920, à espera de quem for consultá-los pessoalmente. Até lá, o que se pode afirmar com segurança é o que os dois registros fotográficos mostram: em 1923 e 1924, havia no Carleton College um clube que juntava estudantes estrangeiros e norte-americanos, e alguém achou que valia a pena fotografá-lo.
Referências Bibliográficas
- Carleton College. “Our History”. Northfield: Carleton College. Disponível em: https://www.carleton.edu/about/history/
- Carleton College Archives. “Homecoming 1924 – Cosmopolitan Club Float”. Fotografia de Harvey E. Stork, 1924. Stork Photograph Collection, Carleton College, Northfield, Minnesota. Disponível em: https://contentdm.carleton.edu/digital/collection/CCAP/id/583
- Carleton College Archives. “Karleton Kosmopolitan Klub”. Fotografia de Harvey E. Stork, 1923. Stork Photograph Collection, Carleton College, Northfield, Minnesota. Identificador stork00763.tif. Disponível em: https://contentdm.carleton.edu/digital/collection/CCAP/id/249
- Hatle, Elizabeth Dorsey; Vaillancourt, Nancy M. “One Flag, One School, One Language: Minnesota’s Ku Klux Klan in the 1920s”. Minnesota History, v. 61, n. 8, inverno de 2009-2010, p. 360-371. Disponível em: https://storage.googleapis.com/mnhs-org-support/mn_history_articles/61/v61i08p360-371.pdf
- Indiana University Archives. “Cosmopolitan Club records, 1916-1970, bulk 1922-1958”. Bloomington: Indiana University. Disponível em: https://archives.iu.edu/catalog/InU-Ar-VAA2766
- Mikaelian, Allen J. “The Call of the Human”: The Cosmopolitan Club Movement and Early Twentieth-Century Internationalism. Tese de doutorado, American University, Washington, 2017. Disponível em: https://aura.american.edu/articles/thesis/The_Call_of_the_Human_The_Cosmopolitan_Club_Movement_and_Early_Twentieth-Century_Internationalism/23889567
- Schwarz, Molly J. The Cosmopolitan Club Movement at the University of Iowa. Tese de doutorado em Educational Policy and Leadership Studies, University of Iowa, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.25820/etd.007422
- University of Illinois Archives. “Association of Cosmopolitan Clubs Records, 1908-1929, 1939-1944, 1949-2009”. Urbana-Champaign: University of Illinois. Disponível em: https://archon.library.illinois.edu/archives/index.php?p=collections%2Fcontrolcard&id=1410
