Brasília e a Lenda dos Candangos Concretados: O Que os Registros Mostram

Palácio da Alvorada, na capital Brasília, em fase de conclusão. Arquivo Público do Distrito Federal, ArPDF.

Palácio da Alvorada, na capital Brasília, em fase de conclusão. Arquivo Público do Distrito Federal, ArPDF.

A construção de Brasília começou em 1956, sob o governo de Juscelino Kubitschek, com a meta de erguer uma capital planejada no Planalto Central a tempo da inauguração marcada para abril de 1960. O prazo político apertado moldou tudo o que aconteceu nos canteiros, inclusive a forma como as mortes de trabalhadores foram registradas, ou deixaram de ser. Desde então circula pelo país a história dos candangos concretados: operários que teriam caído nas formas e sido cobertos pelo concreto para que a obra não parasse. Este texto separa duas coisas que costumam aparecer misturadas, o que pertence à tradição oral e o que está documentado.

O Projeto da Construção de Brasília

O plano urbanístico foi de Lúcio Costa e os principais edifícios públicos foram projetados por Oscar Niemeyer. A execução exigiu milhares de trabalhadores, vindos sobretudo do Nordeste, que chegaram a uma região distante dos centros urbanos, com infraestrutura improvisada e alojamentos montados pelas próprias construtoras. Eram os candangos.

As condições de vida e de trabalho nesses acampamentos são o objeto do estudo de Gustavo Lins Ribeiro em O capital da esperança, dedicado à experiência dos trabalhadores na construção da capital. Esse é o pano de fundo comum tanto à lenda quanto aos episódios de violência que deixaram rastro documental.

A Lenda das Mortes Concretadas

A versão mais difundida diz que operários morriam ao cair nas formas durante a concretagem e que, pela pressa, os corpos eram cobertos com concreto e a obra seguia adiante. A história é contada há décadas em Brasília, aparece em livros de curiosidades locais, em roteiros turísticos e na conversa cotidiana.

Não há, nas fontes consultadas, registro oficial, laudo pericial, processo judicial ou apuração jornalística que confirme mortes ocorridas dessa maneira ou corpos deixados dentro de estruturas de concreto. Isso não é prova de que nada parecido tenha acontecido em algum canteiro: significa que a alegação, do jeito que circula, não tem lastro documental conhecido.

O artigo de Ramon Lamoso de Gusmão sobre a construção da Universidade de Brasília ajuda a entender por que a dúvida permanece. O autor trata as mortes de candangos como assunto encoberto pela história oficial, um silêncio que os arquivos disponíveis não resolvem, e é justamente essa lacuna que torna difícil confirmar ou descartar relatos isolados.

O Relato do Livro de Hélio Queiroz

Uma das versões mais citadas está em 1001 Coisas Que Aconteceram em Brasília e Você Não Sabia, de Hélio Queiroz. O autor associa a urgência da inauguração ao descuido com a segurança dos candangos e apresenta o caso do auditório da UnB como tradição oral, não como fato apurado.

“Reza a lenda que o auditório ‘Dois Candangos’ da UnB tem esse nome porque dois candangos morreram na concretagem da obra.” – Hélio Queiroz

A ressalva importa. Quem conta a história em livro já a apresenta como lenda. Queiroz acrescenta que acidentes de obra devem ter sido frequentes naquele contexto, com legislação frouxa e sem fiscalização em uma região onde a delegacia mais próxima ficava em Goiânia. É uma leitura razoável do ambiente da obra, não um registro de casos concretos.

As Duas Mortes Documentadas na Obra da UnB

Por trás do nome do auditório existe um núcleo documentado. Segundo o artigo de Ramon Lamoso de Gusmão publicado em 2021, dois operários identificados como Expedito e Gildemar morreram durante as obras da Universidade de Brasília, dias antes da inauguração de 21 de abril de 1962. Os dois tinham carteira assinada e cobertura de seguro do IAPI, e o caso gerou processo de indenização trabalhista, o que deixou rastro em papel. Na cerimônia de inauguração, ainda segundo o mesmo estudo, o reitor Darcy Ribeiro prestou homenagem aos dois candangos.

O que os documentos sustentam, portanto, são duas mortes reais na obra e a homenagem que está na origem do nome do auditório. O mecanismo específico descrito pela lenda, o do corpo coberto pelo concreto, não aparece nesses registros.

O Caso da Pacheco Fernandes Dantas em 1959

Afastar a lenda não significa dizer que a construção de Brasília foi pacífica. O episódio mais grave de violência contra candangos aconteceu na noite de 8 de fevereiro de 1959, domingo de Carnaval, no acampamento da construtora Pacheco Fernandes Dantas, na região onde hoje fica a Vila Planalto. Ficou conhecido como o massacre da Pacheco Fernandes.

Segundo a cobertura acumulada pelo Correio Braziliense ao longo de décadas e os relatos reunidos em pesquisas da UnB, um tumulto começou no refeitório por causa de comida estragada e terminou com a Guarda Especial de Brasília, a GEB, atirando dentro do alojamento. A versão oficial da época registrou um morto, o operário piauiense Evaristo Soares Brandão, e três feridos identificados. Os balanços publicados depois divergem tanto entre si que o próprio número deixou de ser confiável: há apurações que falam em dezenas de feridos e outras que elevam a contagem de mortos bem acima de um. A divergência sobre um episódio com data, endereço e empresa conhecidos já indica o tamanho da falha de registro desde o primeiro momento.

Sobreviventes e testemunhas contam outra história. Os relatos recolhidos pela pesquisadora Nair Heloísa Bicalho de Sousa falam em dezenas de mortos, em corpos retirados do local em caminhões basculantes e nunca contabilizados, e em mais de cem malas de pertences que ficaram no alojamento sem que ninguém as reclamasse. As pesquisas feitas a partir dos anos 1990 não localizaram prova material que sustentasse esses números, e o caso segue sem apuração oficial conclusiva.

A diferença entre as duas histórias está aí. No caso da GEB existem vítima identificada, data, local, construtora e uma disputa aberta sobre a real dimensão do episódio. No caso da concretagem existe apenas a narrativa, sem ponto de partida documental.

Por Que a Lenda Persiste

A construção de Brasília não deixou uma contagem confiável de mortos nos canteiros. O próprio caso de 1959 mostra o tamanho da lacuna: décadas depois, as fontes ainda divergem sobre quantas pessoas foram atingidas em um episódio com data, endereço e empresa conhecidos. Onde o registro oficial falha, a memória oral ocupa o espaço.

A canção Construção, de Chico Buarque, lançada em 1971, é a expressão mais conhecida dessa percepção na cultura brasileira, a do operário que morre na obra e desaparece como número. Não é documento sobre Brasília, mas ajuda a entender por que a imagem do corpo dentro do concreto se fixou tão bem no imaginário do país.

O Que Fica

Brasília foi um marco urbanístico e também uma operação de trabalho extremamente dura, executada em prazo político curto e com os operários no ponto mais frágil da cadeia. Reconhecer que a história dos concretados não tem comprovação documental não diminui isso em nada. Desloca a atenção do boato para o que está registrado, como as duas mortes na obra da UnB e o caso do acampamento da Pacheco Fernandes Dantas, em que há nomes, datas e uma cobrança de esclarecimento que continua em aberto.

Referências Bibliográficas

  1. Correio Braziliense. “Pacheco Fernandes: 50 anos depois, uma ferida aberta.” 1 de fevereiro de 2009. https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2009/02/01/interna_cidadesdf,73566/pacheco-fernandes-50-anos-depois-uma-ferida-aberta.shtml.
  2. De Gusmão, Ramon Lamoso. “Dois candangos: trabalho, morte e indenização na construção da Universidade de Brasília (1962).” Revista Discente Ofícios de Clio, v. 6, n. 10, 2021. https://doi.org/10.15210/clio.v6i10.21106.
  3. Queiroz, Hélio. 1001 coisas que aconteceram em Brasília e você não sabia. Editora Senac-DF, 2014.
  4. Ribeiro, Gustavo Lins. O capital da esperança: a experiência dos trabalhadores na construção de Brasília. Editora UnB, 2008.
  5. Sousa, Nair Heloísa Bicalho de. “O massacre de Pacheco Fernandes Dantas em 1959: memória dos trabalhadores da construção civil de Brasília.” Revista Intercâmbio dos Congressos Internacionais de Humanidades, 2011.

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29/08/2024

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